Callum Falconer, uma das maiores autoridades mundiais em descomissionamento, acredita que o ES deve preparar legislação e infraestrutura para aproveitar janela de oportunidade. Crédito: Divulgação/Findes

Indústria de desmontagem de plataformas pode começar a operar em dois anos no ES

  • 24/09/2026

Callum Falconer, uma das maiores autoridades em descomissionamento do mundo, vê no ES potencial para aproveitar mercado bilionário

Em dois anos o Estado pode começar a operar com o descomissionamento de plataformas e navios e aproveitar um mercado bilionário. Ou seja, pode lucrar com a desmontagem e reciclagem de embarcações usadas na indústria do petróleo. E mesmo com navios da frota mundial que passaram da validade. A opinião é de Callum Falconer, diretor de operações da Decom Mission, resume o alerta sobre o tempo que o Espírito Santo tem para se preparar para o avanço do mercado de descomissionamento de estruturas de petróleo e gás. A Decom Mission é uma organização internacional voltada exclusivamente ao mercado de descomissionamento de ativos de energia.

Falconer deu a aula inaugural, ou “master class” do curso de descomissionamento lançado pela Findes durante a Rio Oil & Gas (ROG.e), que acontece no Rio de Janeiro. A formação é uma iniciativa inédita voltada à preparação de profissionais para uma atividade que deve ganhar cada vez mais espaço no setor de energia. O evento é um dos maiores encontros do setor de óleo, gás e energia do mundo e reúne empresas, especialistas e investidores de vários países.

Com experiência ligada ao mercado do Mar do Norte, uma das regiões mais maduras do mundo em descomissionamento, Falconer vê espaço para o Espírito Santo entrar nessa cadeia. Nesse sentido, o Estado reúne ativos de petróleo e gás, presença de grandes empresas, estrutura portuária, indústria metalmecânica e forte conexão com o comércio exterior. Porém, para aproveitar a oportunidade, ele aponta desafios claros. São eles regulação, infraestrutura, mão de obra, bem como preparação das empresas.

Veja abaixo a entrevista com Callum Falconer:

Que potencial você vê no Espírito Santo para o mercado de descomissionamento?

Há muito potencial. Você vê muitas pessoas tentando entender esse mercado, empresas buscando novas oportunidades e muita atenção voltada para o setor. Existem ativos, presença de grandes empresas, como a Petrobras, e uma cadeia que pode desenvolver novos negócios a partir disso.

É um mercado de futuro, mas esse futuro está muito próximo. Estamos falando de algo que pode ganhar força em cerca de dois anos. E, quando falamos de infraestrutura e desenvolvimento de empresas, dois anos é praticamente amanhã. É preciso começar agora.

O que precisa ser criado para que esse mercado realmente se desenvolva?

Não basta ter um espaço físico. Você precisa de infraestrutura, de empresas preparadas, de pessoas para trabalhar e de capacidade de gerenciamento.

Quando chega um contrato, você precisa manter produtividade e ter estrutura financeira e operacional para executar o projeto. Esse mercado exige uma cadeia inteira funcionando. É preciso ter empresas capazes de prestar serviços, trabalhadores preparados e uma estrutura que dê segurança para quem vai investir.

A falta de mão de obra qualificada no Brasil pode se tornar um problema para o descomissionamento?

Sim, pode ser um problema. É necessário construir essa capacidade. Hoje, muitas empresas já têm dificuldade para encontrar pessoas disponíveis e qualificadas.

No entanto, isso também cria uma oportunidade. O desenvolvimento desse mercado pode gerar treinamento, formação profissional e novos empregos para as comunidades locais. O setor precisa pensar em como preparar essas pessoas e colocá-las dentro do mercado de trabalho.

Também existe a possibilidade de atrair trabalhadores de outros lugares. O Brasil já recebe pessoas de outros países da América do Sul e de outras regiões. Isso pode ajudar, porém  é preciso criar programas de treinamento e integração. Não basta simplesmente trazer pessoas. É necessário desenvolver capacidade profissional.

O Espírito Santo tem uma economia muito ligada ao comércio exterior. Como isso pode ajudar?

O descomissionamento é uma indústria internacional. Durante muito tempo, muitas empresas ficaram concentradas no Reino Unido e no Mar do Norte. Agora, elas perceberam que o mercado está se expandindo para outras regiões, como África e América do Sul.

As empresas que desenvolveram tecnologia, conhecimento e capacidade no Mar do Norte precisam encontrar novos mercados para utilizar essa experiência. Quando você investe em equipamentos, tecnologia e pessoas, precisa continuar usando essa estrutura para obter retorno.

Nesse ponto, um estado conectado internacionalmente tem vantagem. É importante ter portos, logística, empresas acostumadas a negociar com outros países, bem como facilidade para estabelecer conexões internacionais.

Como adaptar a experiência do Mar do Norte para a realidade do Brasil e da América do Sul?

O primeiro ponto é a regulação. É preciso ter regras muito claras. O país precisa definir qual é o modelo, como os projetos devem ser realizados, quais são as exigências ambientais e de segurança e como funciona o licenciamento.

Em alguns aspectos, começar agora pode até ser uma vantagem. Quando você começa praticamente do zero, pode observar o que funcionou e o que não funcionou em outros mercados. Não é necessário repetir todo o caminho feito pelo Mar do Norte. É possível aproveitar a experiência existente e criar regras adequadas desde o início.

O mais importante é fazer a coisa certa do ponto de vista da segurança, do país, das pessoas e do meio ambiente. Empresas internacionais precisam chegar ao Brasil e encontrar regras claras. Isso dá segurança para investir.

Aplicar no Brasil os padrões ambientais usados no Mar do Norte pode ser uma dificuldade?

É necessário ter uma estrutura de regras bem definida. O mercado precisa saber claramente o que pode e o que não pode fazer.

Quando as normas são claras e existe um processo de licenciamento bem estruturado, as empresas conseguem se preparar.

Essa regulação funciona como a fundação de todo o mercado. Antes de desenvolver uma grande indústria de descomissionamento, é preciso construir essa base.

Então o Espírito Santo tem condições de ocupar uma posição importante nesse mercado?

Sim. Existe potencial e existe interesse. Mas é necessário desenvolver infraestrutura, pessoas, empresas e regras ao mesmo tempo. O mercado não vai acontecer apenas porque existem estruturas que precisarão ser descomissionadas.

A oportunidade está em preparar a cadeia antes que a demanda chegue em grande escala. E esse período de preparação é curto. Dois anos parecem muito tempo, mas para desenvolver infraestrutura e negócios é amanhã.

Fonte: Folha Vitória – Edu Kopernick
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