Estrutura experimental valida materiais, soldagens, equipamentos e profissionais que serão empregados na construção do SNCA Álvaro Alberto
A Nuclebrás Equipamentos Pesados S.A. (NUCLEP) concluiu, em parceria com a Itaguaí Construções Navais (ICN), sua participação na fabricação da Seção de Qualificação do Submarino Nuclear Convencionalmente Armado (SNCA) Álvaro Alberto. A conclusão foi anunciada nesta quarta-feira (9) e representa uma etapa técnica necessária antes do início da produção das seções definitivas do casco resistente.
O componente reproduz uma parte do casco que deverá suportar a pressão externa durante as operações submersas. Embora não seja instalado no futuro submarino, ele permite demonstrar que os materiais, equipamentos, procedimentos industriais e profissionais envolvidos atendem aos requisitos de qualidade e segurança definidos pelo projeto.
Validação antes do casco definitivo

A Seção de Qualificação funciona como uma estrutura de prova em escala real. Sua fabricação permite testar processos como conformação de chapas de aço de alta resistência, montagem de anéis estruturais, controle dimensional, soldagem e inspeção das juntas.
Os resultados obtidos deverão comprovar que os procedimentos podem ser reproduzidos na fabricação do casco definitivo. A qualificação também envolve soldadores, operadores, inspetores e engenheiros, reduzindo riscos industriais antes que o trabalho avance para componentes que efetivamente integrarão o submarino.
A produção de cascos resistentes exige tolerâncias rigorosas, pois qualquer irregularidade em materiais ou soldagens pode comprometer a capacidade da embarcação de operar com segurança em grandes profundidades. Por isso, a construção da seção experimental é considerada uma passagem obrigatória entre o projeto de engenharia e a produção seriada das partes estruturais.
Experiência acumulada na construção de submarinos

A conclusão da seção preserva competências desenvolvidas pela NUCLEP ao longo de aproximadamente quatro décadas. A estatal participou da fabricação de cascos resistentes de submarinos brasileiros de tecnologia alemã e, posteriormente, produziu estruturas para as quatro unidades convencionais da Classe Riachuelo.
A lista compreende os submarinos Riachuelo (S40), Humaitá (S41), Tonelero (S42) e Almirante Karam (S43), este último originalmente denominado Angostura. Os três primeiros já foram incorporados ao setor operativo, enquanto o Almirante Karam, lançado em novembro de 2025, passa por testes de aceitação no mar. A Marinha do Brasil considera o encerramento da fase dos submarinos convencionais como a transição industrial para a construção do SNCA.
“O Brasil levou décadas para formar profissionais, desenvolver tecnologia e construir uma capacidade industrial apta a participar de um projeto dessa complexidade”, afirmou o presidente da NUCLEP, Adeilson Telles. Segundo ele, a fabricação demonstra que o conhecimento necessário permanece instalado no país e deve ser preservado.
A NUCLEP informa que sua participação na construção naval militar remonta aos submarinos de tecnologia alemã e inclui a produção dos cascos resistentes das quatro unidades da Classe Riachuelo. A empresa também fabrica equipamentos de grande porte para os setores nuclear, energético e de defesa.
Atuação no casco e na propulsão

As instalações dos chamados bloco 30 e bloco 40, no Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica, no Centro Industrial Nuclear de Aramar, em Iperó (SP)

Além da qualificação dos processos destinados ao casco, a NUCLEP participa do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), instalado no Centro Industrial Nuclear de Aramar, em Iperó, São Paulo. O complexo reproduzirá em terra, em escala real, a planta de propulsão que deverá equipar o Álvaro Alberto.
A empresa está envolvida na fabricação do Bloco 40, estrutura que abrigará o reator nuclear e sistemas associados. Segundo a descrição técnica da própria NUCLEP, o fornecimento inclui componentes como o vaso do reator, tanques, vasos acumuladores e trocadores de calor.
Dessa forma, a estatal atua simultaneamente nas duas principais vertentes industriais do programa: a qualificação da estrutura resistente do submarino e o desenvolvimento terrestre de sua futura planta de propulsão.
Apesar da designação “submarino nuclear”, o Álvaro Alberto não será equipado com armas nucleares. A expressão refere-se exclusivamente ao sistema de propulsão. O SNCA deverá empregar armamento convencional, como torpedos e mísseis antinavio, combinando elevada autonomia submersa, velocidade sustentada e capacidade de permanecer longos períodos submerso sem a necessidade de utilizar o esnórquel.

Visão em corte simplificada do Submarino Nuclear Convencionalmente Armado (SNCA)
Próximos desafios do PROSUB
O Álvaro Alberto constitui a etapa mais complexa do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), criado a partir da parceria estratégica firmada entre Brasil e França em 2008. A cooperação francesa forneceu tecnologia para o projeto e a construção dos submarinos convencionais, mas a planta nuclear e o combustível estão sendo desenvolvidos no Brasil.
O cronograma foi sucessivamente alterado devido a dificuldades técnicas e oscilações orçamentárias. A previsão divulgada em 2026 aponta que o submarino deverá chegar ao mar por volta de 2038. Em agosto, durante visita a Aramar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu buscar os recursos necessários para dar continuidade ao empreendimento, após reconhecer que a irregularidade dos repasses vinha afetando o programa. Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, o Programa Nuclear da Marinha recebeu R$ 1,4 bilhão em 2025, enquanto o projeto específico do submarino consumiu outros R$ 649 milhões.
Com a etapa de qualificação concluída, o avanço para as seções definitivas dependerá da aprovação dos processos industriais, da maturidade do LABGENE e da manutenção de um fluxo orçamentário compatível com um projeto de duração plurianual. A integração futura do reator ao casco será um dos pontos técnicos mais delicados de todo o programa.








