Ensco 6002

Frota de sondas volta aos anos 1990

  • 13/09/2018

Com contratos vencendo em 2018, Petrobras chegará ao fim do ano com carteira inexpressiva

A Petrobras vai fechar 2018 com um indicador nada animador: em dezembro a companhia terá apenas 12 sondas operando no Brasil para atender suas campanhas exploratórias e de desenvolvimento. Poucas iniciativas de contratação de novas unidades estão em andamento e, ainda assim, com início de contrato para 2019. O número de equipamentos é realmente pequeno e remete à carteira de sondas da petroleira nos anos 90.

A frota ficará aquém até mesmo do número total de unidades que algumas empresas de perfuração chegaram a ter no Brasil, como a Diamond e Ensco – respectivamente, 14 e 11 equipamentos operando para a petroleira brasileira e outras companhias no país, nos tempos áureos da atividade de perfuração.

Não bastasse o quadro do final do ano, a petroleira tem ainda outros cinco contratos que vencerão em 2019, entre os meses de março e dezembro. Com quatro licitações em curso para o afretamento de novas unidades para o período de abril a dezembro de 2019 e podendo até mesmo contratar novos equipamentos, as projeções são de que a carteira de sondas no final do próximo ano gire entre o número mínimo de 13 equipamentos e o máximo de 17.

O mercado apostava que a Petrobras fosse repor parte dos contratos expirados ao longo de 2018. A estratégia de requisitar sondas apenas para 2019 causou surpresa, deixando algumas empresas praticamente de fora ou com um único contrato no Brasil.

Baixas computadas

Neste ano, pelo menos dez unidades de perfuração já saíram da carteira da petroleira. Somente no período de maio a agosto, sete sondas deixaram de operar depois que seus contratos venceram. Neste mês de setembro, mais uma unidade terá seu prazo contratual expirado e, até o fim do ano, outras duas baixas ainda serão computadas.

Deixaram de operar para a Petrobras a Ocean Rig Corcovado, da Ocean Rig; a West Carina e a Sevan Brasil, da Seadrill; a Ensco 6001, da Ensco; a Norbe VI, da Ocyan; e mais a Atlantic Star e a Brava Star, da Queiroz Galvão Óleo & Gás. Até o fim do ano sairão a semissubmersível Sedco 706, da Transocean, e os navios-sonda Amaralina Star e Laguna Star, da QGOG.

Chegada da sonda Norbe VI ao Unidade Paraguaçu, na Bahia

As baixas não pouparam equipamentos de águas profundas, com duas torres de perfuração, e nem mesmo o privilegiado projeto de Mero/Libra. Depois de três anos com dois navios-sonda operando em dedicação exclusiva, o ativo passou a ter apenas uma unidade, a West Tellus. O contrato da West Carina venceu, sem que o consórcio optasse por alocar de imediato uma nova sonda. O grupo conduz uma licitação para afretar dois novos equipamentos, mas como a exigência de entrada em operação foi marcada para dezembro de 2019, o ativo ficará sem nenhuma unidade dedicada por dois meses.

Das sete baixas registradas até agosto, cinco estavam capacitadas para operar em águas profundas, das quais três em 3 mil m, uma em 3,5 mil m e uma em 2,4 mil m, sendo quatro equipadas com MPD. As outras duas retiradas da frota eram voltadas a horizontes menores, uma para 1,7 mil m e outra ancorada ara 600 m.

Carteira atual

No momento, de acordo com a radiografia de setembro, a carteira de sondas da petroleira conta com 15 unidades, sendo 14 operando no Brasil e uma no exterior, a Petrobras 10.000. Operado pela Transocean, o navio-sonda será trazido para o país em setembro para executar campanhas no Nordeste, tendo como primeiro trabalho possivelmente o projeto de Farfan. Um teste de longa duração, com o FPSO Cidade de São Vicente, no último trimestre deste ano, está previsto para o ativo.

A maior parte dos equipamentos da atual carteira está alocada a projetos de Desenvolvimento da Produção. As campanhas exploratórias da Petrobras praticamente se extinguiram, a exceção de Libra, que segue com atividade em curso.

A frota existente hoje é formada por nove navios-sonda e seis semissubmersíveis, todos com posicionamento dinâmico (DP). Dez unidades têm capacidade para operar em lâmina de 3 mil m, uma em 3,6 mil m e outras quatro estão capacitadas para operar no range de 1,7 mil m a 2,4 mil m.

Concorrências em curso

Com o mercado de perfuração a seu favor e se valendo dos excelentes resultados de produtividade dos poços do pré-sal, a Petrobras decidiu lançar novas licitações requerendo sondas apenas para 2019. A petroleira conduz no momento quatro bids, um para a afretamento de duas unidades de 3 mil m para Libra/Mero, um para uma unidade de 2,4 mil m para o projeto do BM-S-11, outro para um ou mais equipamentos híbridos para operação em 450 m até 2 mil m, e um último para unidades ancoradas.

Diante das poucas ofertas de negócio no mundo para unidades de águas profundas, as licitações da Petrobras são vistas como a tábua de salvação, o que promete render grandes disputas em setembro, mês marcado para as entregas de propostas. Depois de a Shell contratar a Brava Star, sonda da QGOG, para 3 mil m e equipada com duas torres, o mercado está ansioso pelos preços qu serão ofertados na concorrência da Petrobras.

A Brava Star vai realizar uma campanha quatro poços nos ativos de Sul Gato do Mato, Alto de Cabo Frio Oeste e BC-10, em Campos, por uma taxa diária de menos de US$ 130 mil.

Na concorrência de Libra/Mero as unidades terão que estar disponíveis para operação apenas em dezembro de 2019. Já o processo do BM-S-11 solicita uma unidade para abril 2019, com prazo de afretamento de dois anos. As unidades híbridas estão sendo solicitadas para setembro do próximo ano.

Na licitação das sondas ancoradas, a disputa ficou aquém do esperado, com apenas a Seadrill, Ocean Rig e Dolphin tendo apresentado proposta. Os rumores são de que duas empresas teriam sido desqualificadas e que o processo pode vir a ser cancelado.

Afora as licitações formais, no fim de agosto foi lançada uma RFI (request for information) para verificar o interesse do mercado e a disponibilidade de sondas para 3 mil m. No início do ano, a companhia fez uma consulta ao mercado para uma sonda de perfuração para 3,9 mil m de lâmina d´água, mas o processo não foi adiante.

Petrobras 10000

 

Impacto na produção

Apesar da alta produtividade dos poços do pré-sal, especialistas e executivos do setor temem que a estratégia adotada pela Petrobras para o segmento de perfuração possa afetar os indicadores de produção mais adiante, caso não haja agilidade no processo de retomada de afretamento de novas sondas. Além da demanda por equipamentos de work-over para combater o declínio da produção da Bacia de Campos, ex-executivos da empresa reforçam que dentro de cinco a sete anos será preciso dar início as primeiras campanhas de work over nos poços do pré-sal.
“O pré-sal não irá combater o declínio da produção dos projetos da Bacia de Campos para sempre. O FPSO Cidade de Angra está em operação desde 2010 e, em breve, a companhia terá que intervir também em poços do pré-sal, o que irá interferir em volumes expressivos de produção”, ressalta uma fonte.

Raio X das empresas

Sem a Petrobras impulsionando a atividade e as novas contratações, as empresa de perfuração presentes no Brasil e no exterior seguem operando em modo de sobrevivência. A Transocean, que chegou a ter por volta de 14 equipamentos sob contrato no Brasil, parte com a Petrobras e parte com petroleiras estrangeiras, está prestes a ficar com apenas uma sonda, diante do término de contrato em outubro da Sedco 706, que será sucateada.

O mesmo quadro já é enfrentado pela Ensco, que desde junho, após o fim do contrato da Ensco 6001, que será sucateada, mantém apenas a Ensco 6002 em operação. A Seadrill perdeu dois contratos neste ano com a Petrobras e opera uma única sonda para a petroleira, a West Tellus, em Libra/Mero, mantendo ainda a West Saturn operando para a Equinor, em Carcará.

Ensco 6002

A QGOG vive um dos piores cenários. A empresa detinha seis contratos com a Petrobras, todos com vencimento em 2018 e mantém no momento apenas os contratos da Amaralina Star e da Laguna Star, que vencerão em setembro e novembro, respectivamente, afora a recente contratação da Brava Star para a Shell.

Diante do quadro atual, empresas como a Ensco, Transocean, Seadrill, Petroserv e QGOG correm o risco de chegar ao fim de 2019 sem contratos no Brasil.

Sob o cenário de queda das taxas e de sobra de unidades, as empresas de perfuração vem acumulando prejuízos consecutivos ao redor do mundo, sucateando suas unidades e vendo a lista de sondas em cold stacked e warm stacked. As estimativas são de mais de 100 equipamentos parados sem contrato em todo mundo. O custo de manutenção de uma sonda parada gira em torno de US$ 30 mil/dia a US$ 70 mil. As projeções apontam para 90 sondas cortadas, entre navio-sonda, semissubmersíveis e jack-ups.

A Transocean, que está longe de ser a perfuradora em pior situação, sucateou mais de 35 unidades nos últimos anos e tem cerca de 14 sondas paradas sem contrato. A Pacific Drillling, por exemplo, está em recuperação judicial, e a Maersk Drilling esteve a venda, sem que a operação despertasse o interesse de outras companhias

Enquanto o segmento de águas profundas ainda sente a crise, a atividade de perfuração no Mar do Norte, Austrália e Canadá, em áreas de ambiente hostil, já se mostra aquecida. Recentemente, a Transocean acertou um contrato deste tipo por quase US$ 300 mil/dia.

Melhoria de cenário

Apesar do momento de baixa, a perspectiva é de melhora no Brasil e no exterior, ainda que um aquecimento mais expressivo só deva ser sentido realmente a partir de 2020/2021. Diante dos resultados dos últimos leilões da ANP, o mercado trabalha com a certeza de que a Petrobras e outras operadoras terão demanda por novos equipamentos, sobretudo para campanhas exploratórias. As apostas são de que o número total de sondas em operação no país possa girar ao redor de 20 unidades neste período.

Com o mercado sobreofertado, alguns executivos defendem que o setor poderia melhorar mais rápido se as empresas adotassem a estratégia de sucatear as sondas velhas. Para que o mercado volte a respirar mais aliviado é preciso que a demanda seja aquecida e que a sobreoferta de equipamentos diminua. A Diamond, que chegou a ter mais de 30 sondas, sucateou praticamente todas as suas unidades de 4a geração e mantém hoje 18 unidades em carteira.

Quando o mercado estava aquecido muitas empresas investiram pesado na construção de novas sondas de águas profundas. Para se ter uma ideia, ainda hoje há sondas em estaleiro, que sequer foram entregues. Levantamento feitos por empresas do setor apontam para um volume de pelo menos sete unidades, entre semissubmersíveis e navios-sonda, além de uma infinidade de jack-ups.

Embora se preveja uma melhora do setor, prevalece a percepção de que mercado não voltará mais ao patamar do passado. No Brasil, as apostas são de que o total de sondas em operação atinja em torno de 30 a 35 equipamentos, levando com conta os contratos de todas as petroleiras e tendo em vista a demanda dos projetos de desenvolvimento da produção a partir de 2023, 2024 e 2025.

A lista de petroleiras com demanda por sondas no Brasil inclui a ExxonMobil, que prevê uma campanha como operadora em 2020, a Total em Lapa e na Foz do Amazonas, com processos de contratação já em curso, além da Shell e da Equinor que já têm sondas contratadas. Além das grandes petroleiras, existe a demanda por vir dos processos de desinvestimento da Petrobras.

Em meio às projeções sobre demanda e oferta no Brasil, há também a novela da Sete Brasil. O futuro da companhia ainda é incerto, mas as tentativas são de salvar a empresa e garantir a continuidade de quatro contratos de afretamento com a Petrobras.

Fonte: Brasil Energia – Claudia Siqueira
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