Siderúrgicas brasileiras aumentaram em 30% os preços do aço em 2021 e Abimaq considera abusivo o reajuste

  • 05/02/2021

A disparada no preço do aço cobrado pelas siderúrgicas brasileiras se assemelha a um cartel muito bem organizado. Os aumentos sucessivos e em conjunto nos preços do aço parecem uma roda de jamanta na banguela. Ninguém segura. A construção civil é a maior consumidora de aço do Brasil. A indústria de petróleo e gás é outra grande compradora do insumo. Ambas estão sofrendo muito. Já a indústria de máquinas, segunda maior consumidora de aços do país, nem se fala. Ela adquire quase 28% da produção das siderúrgicas.  Para lembrar, existem quase 320 tipos de aços diferentes, longos, planos, chapas, laminados a frio e a quente, forjado, fundido, inox, entre outros. Por isso não é simples identificar quanto e que tipo de aço teve essa ou aquela variação. Mas por uma média pode se chegar a um termo.

José Velloso – Presidente da Abimaq

 

Além de todos estes aspectos, o mercado do aço no Brasil tem uma característica. Nem todo consumidor compra o produto diretamente das grandes siderúrgicas brasileiras, como ArcelorMittal, Ternium, Usiminas, Gerdau, CSN etc. As siderúrgicas vendem apenas para os grandes compradores. Os distribuidores vendem para os pequenos e médios consumidores. O Petronotícias conversou sobre o problema que o mercado está vivenciando com Presidente-Executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas (ABIMAQ), José Velloso (foto): “Se nós fizermos uma média no aumento dos preços de dezembro de 2019 a dezembro de 2020, as siderúrgicas aumentaram o preço, em média, de 45% a 65%, dependendo do tipo de produto e das próprias siderúrgicas. Já nas distribuidoras, o aumento foi 85% a 105% em apenas um ano. Agora em 2021, as siderúrgicas aumentaram em média 30%. Isso é um baque. Pegou a todos nós de surpresa. Vejam o aumento no acumulado de dezembro de 2019 até o início de fevereiro. A maior parte da indústria de máquina é de pequenos e médios. Eles não têm para onde correr. São aumentos abusivos. Isto é um absurdo”, declarou.

O presidente da associação relembra que os aumentos sucessivos no preço do aço começaram um pouco após a pandemia do coronavírus chegar ao Brasil. “As siderúrgicas desligaram os altos fornos pouco antes da pandemia, prevendo uma queda no consumo. Efetivamente, houve uma pequena queda em março de 2020 e uma queda maior em abril. Mas já em maio, o mercado começou a retomar. As siderúrgicas aproveitaram uma oportunidade, com muita demanda e pouco produção. Daí os aumentos sucessivos”, lembrou.

Diante desse cenário, Velloso afirma que a ABIMAQ já procurou as siderúrgicas para discutir a atual situação. “Em setembro do ano passado fizemos uma grande reunião muito produtiva, também com a participação das grandes distribuidoras. Ficou acertado que os 13 altos fornos que foram desligados seriam religados. Também nos foi prometido que, em fevereiro deste ano, o mercado já estaria normalizado. Mesmo assim, os preços continuaram subindo e agora levamos esta pancada. Somente este ano, vimos um aumento médio de 30% nas siderúrgicas”, lamentou.

O Ministério da Economia foi consultado para comentar e apontar as razões desse descontrole total nos preços. Mas, apesar da promessa, não nos enviou explicações. No fundo, o empresariado brasileiro está conhecendo na prática o que significa a expressão “comendo o pão que o diabo amassou”. Os projetos estão indo embora do país. A Vale já fechou pacotes enormes diretamente com empresas na China; as plataformas P-78 e P-79 da Petrobrás irão direto para a Coreia do Sul e, pelo andar da carruagem, as coisas não vão parar por aí. Além disso, o câmbio favorável, que poderia beneficiar as exportações, está sendo neutralizado com esse preço do aço. Não tem saída.

Procuramos também ouvir o CADE, mas o órgão tirou o corpo fora: ” Não é atribuição legal do Cade fiscalizar os preços praticados em qualquer setor da economia nacional, uma vez que a liberdade de preços é a regra no Brasil conforme os princípios constitucionais da livre iniciativa e da livre concorrência. O Cade pode passar a monitorar o comportamento de determinado mercado a partir da existência de indícios de infração à ordem econômica.”  Em uma situação como esta, o governo deveria atacar o imposto de importação do aço tendo como contraposição à importação de bens prontos sem o imposto ou com imposto menor. As siderúrgicas geram muitos empregos, claro, mas as metalúrgicas e caldeirarias geram muito mais e, se elas morrerem, serão outros milhares de empregos destruídos. Esses aumentos desenfreados não são uma questão apenas de competitividade, mas de condições desiguais.

Vejam o exemplo do resultado financeiro da Gerdau no terceiro trimestre de 2020, em plena pandemia: a empresa alcançou lucro líquido de R$ 795 milhões. Por sua vez, a receita líquida da companhia somou R$ 12,2 bilhões nesse período, 23% a mais em relação ao mesmo intervalo do ano anterior, com as vendas físicas de aço totalizando 3,2 milhões de toneladas, uma alta de 4%. Isso em plena pandemia. Apesar desta realidade, as entidades que representam as pequenas, médias e grandes indústrias são as mesmas que representam também as grandes siderúrgicas. Talvez por isso, a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) e a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), que foram provocadas para emitir uma opinião sobre o tema, abriram mão de defender seus associados.

 

Fonte: Petronotícias
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