Ocyan enxerga novo ciclo de crescimento com FPSOs e descomissionamento

  • 01/06/2026

Após um ano focado em reestruturação financeira e operacional, a Ocyan vê condições para iniciar um novo ciclo de crescimento, segundo o CEO Rodrigo Lemos.

Em entrevista à BNamericas, o executivo detalhou a estratégia da companhia em FPSOs no modelo BOT e descomissionamento e fabricação de equipamentos offshore, além da expectativa por novas licitações da Petrobras.

BNamericas: O que mudou na Ocyan desde sua saída da área de perfuração e a entrada do novo controlador?

Lemos: Foram três anos de muitas mudanças. Em meados de 2023, tivemos o spin-off da nossa área de perfuração. Era uma área super relevante na companhia, representava 65% do EBITDA. No âmbito de uma reestruturação financeira, os bondholders assumiram a unidade de perfuração, ‘equitizaram’ a dívida, e a Ocyan ficou com uma participação minoritária de 6,5% nessa nova empresa, chamada Foresea.

Logo em seguida, tivemos a entrada do novo acionista controlador, um fundo gerido pelo EIG e pela Lakeshore, em abril de 2024. Eu assumi a companhia em abril de 2025, e meu primeiro ano foi muito focado em reestruturação, reorganização e readequação da estrutura de capital para deixar a companhia do tamanho certo e preparada para um ciclo de crescimento.

Fizemos a reestruturação das áreas de apoio e dois grandes movimentos em 2025. O primeiro foi a venda do FPSO Cidade de Itajaí para a Karoon. Com os recursos da venda, amortizamos parte da dívida que tínhamos com o BNDES.

O segundo foi o refinanciamento do FPSO Pioneiro de Libra. Alongamos essa dívida até o final do contrato com a Petrobras, em 2029, o que também liberou capital para a companhia.

Isso nos permitiu pagar dividendos aos acionistas já em 2025 e antecipar o dividendo previsto para setembro de 2026. Hoje, temos cerca de 80% da dívida com o BNDES amortizada.

Saímos de uma alavancagem de seis vezes dívida líquida/Ebitda para uma vez. Reduzimos quase 80% da nossa alavancagem e chegamos a um patamar de estrutura de capital correta para voltar a crescer.

Hoje estamos em uma posição muito melhor do que no ano passado. Passamos da fase de sobrevivência. Conseguimos viver com os contratos atuais pelos próximos anos, e isso nos dá tranquilidade para buscar os contratos certos, que realmente gerem valor para a companhia e para os acionistas.

BNamericas: Quais FPSOs a Ocyan opera atualmente?

Lemos: Hoje temos o Pioneiro de Libra, do qual somos proprietários e operadores no contrato com o consórcio de Libra, liderado pela Petrobras. Esse contrato vai até 2029, mas já iniciamos conversas com a Petrobras para uma extensão.

O Cidade de Itajaí foi vendido no ano passado, mas ainda fazemos a operação. Transferiremos a operação para a Karoon em junho.

Também operamos os ativos de Papa Terra para a Brava Energia, um FPSO e uma TLWP [tension leg wet platform]. Esse contrato vai até o ano que vem.

BNamericas: Existe possibilidade de renovação do contrato com a Brava?

Lemos: Estamos conversando sobre uma possível renovação. Eles estão avaliando se vale a pena continuar terceirizando a operação ou primarizá-la. Estão supersatisfeitos com a operação. O desempenho é muito bom, e o nível de eficiência é super alto, então isso ajuda muito em uma possível renovação.

BNamericas: Quais oportunidades de crescimento vocês enxergam hoje?

Lemos: Temos três áreas de negócio. Em FPSOs, estamos apostando muito na nova modalidade de contratação da Petrobras, o BOT [build, operate and transfer].

Com o aumento do tamanho dos FPSOs, ficou muito difícil competir nos modelos tradicionais, como o afretamento. O BOT abre um caminho enorme para nós, porque a Petrobras paga a construção durante o período de obra e depois operamos o ativo.

No ano passado, apresentamos proposta para o BOT de Sergipe Águas Profundas [SEAP I II] e ficamos em segundo lugar, cerca de 5% ou 6% atrás da SBM.

Agora estamos nos preparando para apresentar propostas para Albacora, cuja entrega é em julho, e Búzios 12, em setembro.

Se olharmos o pipeline da Petrobras, acredito que temos boas chances de conquistar um projeto nos próximos dois ou três anos.

BNamericas: Vocês esperam novas licitações de FPSOs ainda este ano?

Lemos: Estamos ouvindo as mesmas coisas que vocês [imprensa]. Tem [Revitalização de] TupiAram, talvez Mero 5.

O fato de a Petrobras estar próxima de assinar os contratos BOT de SEAP mostra que o modelo parece viável para ela. Acreditamos que os próximos projetos também serão BOT, modelo em que conseguimos agregar muito valor pela nossa expertise operacional.

BNamericas: E no segmento subsea?

Lemos: Tomamos a decisão de nichar nossa atuação. Não queremos competir com TechnipFMCSubsea 7 ou Saipem nos grandes projetos.

Nosso foco são projetos de descomissionamento. Fomos a primeira empresa a fazer descomissionamento submarino em águas profundas para a Petrobras. Terminamos esse contrato no final de 2024 e entregamos tudo no prazo.

Também estamos focados em projetos brownfield menores. Hoje executamos o projeto de revitalização da malha de gás da Bacia de Campos para a Petrobras. No segundo semestre, começaremos a campanha offshore de instalação de equipamentos e risers.

BNamericas: A Ocyan também está olhando descomissionamento de topside?

Lemos: Sim. Na área de serviços, fazemos manutenção e estamos olhando o descomissionamento de topside. Neste momento, estamos trabalhando no bid do descomissionamento da P-37. Nesse projeto, retiramos todo o topside e preparamos o casco para seguir para conversão ou renovação e, daí, ser utilizado em algum projeto de revitalização da Petrobras.

BNamericas: A Petrobras deve lançar novas licitações de descomissionamento ainda este ano?

Lemos: Em subsea, com certeza. Já indicou que haverá uma licitação de descomissionamento submarino no segundo semestre.

Ela tem tido bastante cuidado em dar visibilidade ao mercado. Faz lives periódicas mostrando o pipeline para que as empresas possam se preparar.

Também assinamos recentemente um MOU [memorando de entendimento] com a Petrobras para estudar soluções integradas de descomissionamento submarino. Hoje os escopos são separados, mas a Petrobras está avaliando juntar retirada de linhas, equipamentos e abandono de poços para reduzir custos e tempo de execução.

BNamericas: Como vocês veem os modelos EPC para FPSOs?

Lemos: Não participaríamos. Esses projetos são mais direcionados para estaleiros e EPCistas.

Nossa estratégia é usar nossa expertise operacional e de gestão de projetos. O BOT faz muito mais sentido para nós.

BNamericas: Como está a questão do financiamento para novos projetos?

Lemos: Nos FPSOs BOT, a demanda de capital é menor, porque a Petrobras paga conforme os marcos contratuais.

Nos projetos subsea, principalmente descomissionamento, existe uma necessidade maior de capital de giro para mobilização de embarcações.

Mas nosso relacionamento bancário melhorou absurdamente após a reestruturação e a entrada do EIG e da Lakeshore.

Os bancos enxergam hoje uma empresa financeiramente saudável e estão prontos para apoiar nossos projetos.

BNamericas: O que a Ocyan busca hoje em fornecedores e inovação?

Lemos: Em subsea, nossa principal necessidade é embarcação. Decidimos atuar de forma asset light, então precisamos de parceiros que possam fornecer barcos quando necessário.

Na área de serviços, temos uma vertical de tecnologia chamada Nexio, que trabalha com startups e soluções digitais. Buscamos tecnologias que aumentem eficiência e reduzam riscos operacionais.

Temos projetos de P&D [pesquisa e desenvolvimento] com Petrobras e Shell, incluindo redução de consumo de diesel e um robô para intervenção em poços.

Também usamos tecnologias como Digital Twin em nossos FPSOs para ganhos de eficiência.

BNamericas: Existe perspectiva de retorno ao mercado de PLSVs?

Lemos: Nós nunca desistimos. Existe um bid agora no mercado, e estamos tentando estruturar uma parceria com alguém que tenha embarcação, enquanto nós fazemos o serviço.

O prazo de bid é curto e não conseguimos preparar essa parceria antes, porque estávamos muito focados na reestruturação e no descomissionamento. Mas ainda estamos tentando e pode ser que consigamos apresentar proposta.

BNamericas: Há mais algum ponto importante que gostaria de destacar?

Lemos: Fizemos investimentos de R$6 milhões (US$1,2mi) a R$7mi na nossa base em Macaé para fabricação de equipamentos submarinos.

Hoje estamos fabricando dois manifolds submarinos que serão utilizados no contrato de revitalização da malha de gás da Bacia de Campos com a Petrobras.

Acreditamos que a fabricação de equipamentos mais complexos pode se tornar uma frente importante de crescimento para a nossa área de serviços.

Fonte: BNamericas
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