Análise apresentada pela Clarksons destacou retomada de investimentos, após período sem encomendas, e oportunidades para construção de novas embarcações
Uma análise mercadológica apresentada pela Clarksons na Navalshore 2026, com base em cenários de mercado nacional e internacional, apontou um desequilíbrio entre demanda e oferta que aumenta a urgência da renovação da frota de apoio offshore. A avaliação é que o período sem construções e as novas encomendas da Petrobras ao segmento aumentaram a necessidade de barcos de apoio nos próximos anos. O levantamento também chama a atenção para as altas taxas de utilização das embarcações, que contribuíram para o aumento da idade média da frota.
“Esse é um cenário que se replica para todos os tipos de embarcação e até para o próprio PSV [transporte de suprimentos], que a gente inicialmente achava que não era o caso. É justamente um cenário que também preocupa em função da demanda global”, analisou o diretor da divisão offshore da Clarksons, Raphael Branco, durante o painel ‘Renovação da frota offshore – riscos e oportunidades’, realizado na última quarta-feira (19), segundo dia do evento.
A Clarksons observa maior flexibilidade por parte das contratantes na idade média das embarcações. A leitura é que, cada vez mais, elas estão aceitando mais embarcações com idade média mais alta. Outro aspecto apontado é que a demanda global impacta na relação demanda oferta do Brasil.
“Acho que esse é o ponto principal que a gente não vinha enxergando: essa demanda global vai sim impactar no mercado brasileiro”, alertou Branco. “A gente nunca viu o Brasil como um mercado exportador. E acho que a gente vai começar a enxergar isso nos próximos anos”, projetou.
Entre os fatores identificados que contribuíram para a escassez de investimentos em renovação da frota estão a baixa do mercado a partir de 2014 e as indefinições sobre a transição energética.
“A gente passou quase uma década com pouquíssimo investimento em renovação, que hoje a gente tem um cenário de geopolítica totalmente instável. Está gerando uma expectativa de longevidade cada vez maior para a indústria de óleo e gás e a frota cada vez mais envelhecida”, comentou Branco.
Genil Mazza, shipbroker da Clarksons, ressaltou que em praticamente todos os segmentos foi observado envelhecimento da frota, enquanto a demanda segue crescendo no Brasil e em mercados concorrentes como Guiana, Suriname e África Ocidental.
“Há um desafio claro de renovação da frota brasileira e essa já não é mais uma discussão de longo prazo”, disse Mazza, que moderou o painel.
Ele lembrou que os investimentos que estão acontecendo não são especulativos, pois contam com contratos de longo prazo que oferecem previsibilidade de receita e sustentam os projetos. A questão, segundo Mazza, é se esse modelo será suficiente para garantir a modernização da frota que o Brasil vai precisar na próxima década.
A diretora de relações institucionais do grupo Edison Chouest, Lilian Schaefer, avaliou que os percentuais baixos de novas construções nos últimos 10 anos foram muito motivados pela volatilidade do mercado que, de 2014 até 2020, atravessou uma crise sem precedentes. Ele lembrou que o preço do barril do petróleo, que era de US$ 130, chegou a menos de US$ 30 em determinado momento.
“É um mercado que tem uma volatilidade, houve uma retração no mercado mundial. No Brasil, associado à crise institucional da Petrobras, houve retração de frota, não se construiu nos últimos 10 anos e a frota tende a envelhecer”, comentou Lilian.
O diretor de novos negócios do grupo Bravante, Thiago Lemgruber, reforçou que o segmento de apoio offshore está sujeito a essas variações. Ele mencionou que o Sinaval possui um grupo de trabalho que discute a construção de embarcações de apoio marítimo e discutir as demandas desse setor. Lemgruber comparou que o mercado de navios petroleiros, cujas taxas de afretamento eram cerca de US$ 40.000/dia, há um ano e meio, saltaram abruptamente para mais de US$ 200.000/dia depois da guerra no Oriente Médio.
A chefe do Departamento de Gás, Petróleo e Navegação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Elisa Salomão Lage, considera que, nos últimos três anos, houve uma mudança de políticas de governo e da visão da Petrobras em relação às novas licitações que contribuíram para novas contratações de financiamentos do Fundo da Marinha Mercante (FMM). Além disso, com as instabilidades geopolíticas, o preço do petróleo voltou a subir.
“Em 2024 e 2025, já se tem novamente a contratação de embarcações de apoio, justamente para atender a essa demanda da Petrobras. Agora, a gente está num momento muito bom de novas análises. Estamos acompanhando o mercado, mas de fato as construções têm ocorrido para atender a essa demanda da Petrobras”, comentou Elisa.
O CEO do Estaleiro Mauá (RJ), Miro Arantes, afirmou que as mais de 200 embarcações de apoio construídas no Brasil no ciclo anterior só foram viabilizadas pela tomada de decisão, há cerca de 20 anos, assumindo os riscos e apostando na renovação da frota.
“Tem um risco sim, porque todo estudo é passível disso. Mas você vê que esse estudo se mostrou eficiente, se mostrou capaz. E como estaríamos hoje se essas mais de 200 embarcações que foram construídas no Brasil não tivessem sido construídas? Elas foram construídas por conta de um programa chamado ‘Prorefam’, que foi saindo paulatinamente. Isso é uma coisa que precisa ficar na nossa cabeça”, frisou Arantes.








