Demanda limitada no Brasil

  • 26/12/2016

Contenção de gastos e adiamento de projetos deixam pouca margem para aumento das contratações em 2017

As perspectivas para os fornecedores de bens e serviços do setor de óleo e gás no Brasil em 2017 são pouco animadoras. Diante de uma Petrobras ainda em reestruturação e contendo custos e da possibilidade de adiamento de atividades exploratórias por outras petroleiras, o mercado no país dificilmente apresentará crescimento expressivo, calcando-se sobretudo na reposição de contratos que chegam ao fim.

Passando por um novo ciclo de crise após a retomada no início dos anos 2000, a indústria de construção naval e offshore viu sua carteira minguar nos últimos dois anos e já demitiu aproximadamente 40 mil trabalhadores desde 2014 – cerca de metade do efetivo contratado no pico registrado naquele ano.

A expectativa é que, em 2017, a ocupação dos principais estaleiros brasileiros comece a cair, chegando a somente 10% em 2020, se novas encomendas não forem feitas. Além da falta de adequação de parte dos estaleiros locais para atender a projetos offshore, a perspectiva de flexibilização das exigências de conteúdo local poderá deixá-los em segundo plano pelas operadoras que atuam no país.

Empresas de engenharia e fornecedores de máquinas e equipamentos, que já vivem tempos difíceis com a desaceleração do crescimento industrial no Brasil, também poderão ser afetados pela eventual transferência de encomendas para o exterior, a começar pelos FPSOs de Libra e Sépia, para os quais a estatal pede waiver de conteúdo local.

Um alívio temporário para essas companhias poderia vir de algumas licitações já em curso ou que devem ser lançadas em breve pela Petrobras no downstream, como as concorrências para a URE (Unidade de recuperação de enxofre) da Regap; para a UPGN e utilidades do Comperj e o trecho terrestre do gasoduto Rota 3, além da Unidade de Abatimento de Emissões (SNOX) da Rnest.

Mesmo nesses casos, os epecistas poderão ter de disputar os contratos com empresas internacionais que estão sendo atraídas pelo buraco deixado pelas empreiteiras investigadas na Lava Jato.

Poços

Com a perspectiva de postergação das campanhas de perfuração na Margem Equatorial, o segmento de construção de poços offshore deve ter uma demanda mais concentrada nas bacias sedimentares do Sudeste, atendendo, além da Petrobras, a operadoras como a Statoil, no campo de Peregrino, em Campos, em Carcará (Santos) e em seus blocos exploratórios no Espírito Santo; e Karoon, na avaliação da descoberta de Echidna, em Santos.

Atualmente, a estatal brasileira promove licitações que podem resultar em novos contratos para os prestadores de serviço de poços em 2017. Uma delas prevê a contratação de serviços integrados de assistência técnica a perfuração e completação e outra, o afretamento de embarcações de estimulação de poços (WSSVs, na sigla em inglês).

Entre os fornecedores subsea, uma das expectativas é pelo lançamento do edital de licitação da Petrobras para contratar árvores de natal molhadas (ANMs) para o Piloto de Libra, programado para entrar em operação em 2020.  O escopo deve incluir ferramentas, drill pipe risers (DPRs) e unidades de distribuição submarinas (SDUs).

Outros projetos operados pela petroleira brasileira devem utilizar ANMs já contratadas por frame agreements com a Aker Solutions, Cameron (Schlumberger) e FMC Technologies – caso semelhante ao que é feito com linhas flexíveis contratadas com fabricantes como a Technip e a NOV.

Hoje, a estatal promove licitações para contratar umbilicais para os projetos de Lula Sul, Búzios 1 e 3, e, para Búzios 2 e Atapu 1. Em breve, a Petrobras deve lançar concorrências para Lula Norte, Lula Extremo Sul e Berbigão, também no pré-sal de Santos.

Apoio

No apoio marítimo, a expectativa é por relativa estabilidade da frota, hoje em torno de 400 embarcações, queda anual de 10%. Mas deve perdurar a substituição de barcos estrangeiros por brasileiros, que, pela legislação brasileira, podem bloquear a contratação de classes similares construídas fora do país.

A nacionalização da frota foi vista principalmente com PSVs e OSRVs em 2015 e este ano, e a tendência agora é que ocorra com os AHTSs, segundo a shipbroker Westshore. Em dois rebids recentes de barcos estrangeiros da Petrobras, para AHTS 15000 e 18000, a companhia terá de substituir, por força de bloqueio, parte das unidades ofertadas por barcos nacionais.

Entre as petroleiras estrangeiras, destaque para a Karoon, que deve demandar cinco embarcações de apoio para atuar na campanha de Echidna, e para a QGEP, que poderá contratar um AHTS e um OSRV para apoiar as atividades no campo de Atlanta, na Bacia de Santos.

As IOCs são, por sinal, a principal esperança de novas contratações de helicópteros em 2017. Entre essas companhias estão a BP, que deve fechar novo afretamento ano que vem para início de operação em 2018; a Total, cuja concorrência para a Foz do Amazonas está em fase final; e QGEP e Premier, também para a Margem Equatorial, caso não adiem sua campanha exploratória na região.

Recentemente, a Shell renovou contrato com a CHC Helicopter Service, enquanto a Rosneft, que tem projetos na Bacia do Solimões, contratou a Líder Aviação. Já a Petrobras, que reduziu sua frota de helicópteros no último ano, poderá lançar novas concorrências caso decida não renovar os contratos atuais que vencerão em meados de 2017.

Portos

Ainda na logística, 2017 será um ano de transição para as empresas de apoio portuário, saindo da inércia observada em 2016, com o início do planejamento para novas contratações a partir de 2018 e 2019.

Ao longo do ano, o que deve ser visto com mais frequência é a reposição de contratos existentes, como já acontece em dois bids lançados pela Petrobras para substituir os contratos com a CPVV, em Macaé (RJ), e a Triunfo, no Porto do Rio.

Um sinal de que o segmento trabalha com a perspectiva de recuperação é o desenvolvimento de novos projetos de base de apoio, que estão sendo ampliados ou ganhando força para sair do papel. Juntos, esses empreendimentos – a maior parte no estado do Rio – poderão movimentar cerca de R$ 10 bilhões em investimentos nos próximos anos.

Novas operadoras

Um dos pontos potencialmente positivos, por outro lado, é a entrada de novos operadores no offshore brasileiro, com a Statoil, em Caracará e da Total em Lapa, ambos no pré-sal da Bacia de Santo. Esses projetos certamente estarão na mira de fornecedores para o ano que vem.

Fonte: BrasilEnergia – João Montenegro
26/12/2016|Seção: Notícias da Semana|Tags: , , |