Para consultoria, panorama global do setor de petróleo e gás encoraja investimentos em E&P até 2030 e, no momento, não oferece perspectivas de impactos mais fortes à indústria local no curto prazo
A Clarksons enxerga uma tendência de crescimento do mercado de apoio marítimo e da indústria de petróleo e gás no Brasil. Apesar da complexa e instável situação geopolítica internacional e à perspectiva de alta demanda mundial por embarcações, nos próximos anos, a expectativa geral para as atividades ligadas ao setor em águas jurisdicionais brasileiras (AJB) é considerada positiva pela consultoria. A avaliação da Clarksons é que o panorama do setor de petróleo encoraja os investimentos em exploração e produção (E&P).
Olhando especificamente para o mercado brasileiro de barcos de apoio, não há perspectiva de um impacto considerável no curto prazo. Segundo a Clarksons, há possibilidade de alguns barcos de apoio deixarem o mercado do Oriente Médio, caso o conflito se prolongue, porém as especificações da frota que opera na região, de forma geral, não competem com o mercado brasileiro. Teria mais influência, por exemplo, nos mercados do Oceano Índico, Ásia e Pacífico.
Numa perspectiva até 2030, haverá crescimento da produção offshore na próxima década. O crescimento maior deve ocorrer na América do Sul e no Oriente Médio. “Claro que ali está cercado de questões geopolíticas, mas no longo prazo tudo tende a se normalizar e esperamos crescimento considerável da produção no Oriente Médio. Nos outros mercados, a tendência é todos eles se manterem razoavelmente estáveis ou até ter um considerável declínio”, analisou o diretor da Clarksons, Jens Behrendt, que participou do seminário OSV promovido pela DNV Maritime, na última semana, no Rio de Janeiro (RJ).
A Clarksons acredita que o preço da commodity, de forma geral, vai perdurar num patamar elevado por mais tempo do que estava sendo estimado no início do conflito, com disrupções significativas na cadeia e shutdown nos inventários, aumentando a pressão sobre os preços da commodity. A porcentagem imediatamente afetada na oferta global hoje está na casa de 20%, considerado sem precedentes comparando com as outras crises. Na última segunda-feira (9), a variação do preço do barril oscilou em US$ 30 ao longo do dia, o que também não havia ocorrido em outras crises no setor.
O diretor da Clarksons comparou que o histórico das últimas crises mostra que elas trouxeram impacto imediato no preço do petróleo. Ele entende que, quando se tem um aumento tão vertiginoso no preço do petróleo nesses momentos de crise, a tendência é ter uma desaceleração da demanda nos anos seguintes. Um dos riscos identificados é que a capacidade ociosa disponível para substituir esse declínio abrupto da produção é extremamente limitada.
“Conversando com players do mercado, temos impressão que muitos deles não estão levando tão a sério as consequências possíveis desse conflito, acreditando nas palavras de Donald Trump que será resolvido rapidamente, que não haverá grandes impactos”, contou Behrendt.
Ele ressaltou que, pelo lado positivo, existe um estoque global maior de petróleo do que em outras crises do setor. Por outro lado, a capacidade de armazenagem do Oriente Médio é vista como extremamente limitada, conforme percebido já alguns dias após o fechamento do Estreito de Ormuz.
Na última quarta-feira (11), países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) decidiram liberar 400 milhões de barris de petróleo no mercado global. Os EUA também anunciaram a suspensão temporária das restrições impostas à comercialização do petróleo produzido pela Rússia. As medidas visam frear a cotação da commodity, que ultrapassou o patamar de US$ 100 por barril.
Com o shutdown de diversos campos de petróleo na região, os analistas da Clarksons estimam uma baixa de, pelo menos, 6 milhões de barris por dia, considerando apenas os cálculos fechados desde o início do conflito. A leitura é que essa redução é maior do que a produção do Brasil e tem impacto imediato na produção global, principalmente se o fechamento do estreito perdurar por mais tempo, podendo chegar a 10 milhões de barris.
“Rebatendo o argumento de que a guerra não vai durar muito, fizemos análise e estimamos que só o que foi parado até hoje, para fazer o ramp up das produções, seria no mínimo dois meses, considerando que a guerra acabasse hoje. Esses 10 milhões de barris durante dois meses são algo que vai colocar pressão em cima dos preços globais da commodity”, comentou Behrendt.
Segurança energética
A Clarksons percebe, desde a Guerra da Ucrânia, uma maior preocupação com segurança energética, o que vem levando os países a adotarem medidas para garantir seus abastecimentos. Os efeitos de taxações e restrições envolvendo combustíveis, por exemplo, trazem efeitos imediatos.
“Nessa equação, se o preço da commodity estiver mais alto, vai aumentar a geração de caixa das operadoras. Temos a visão de que há necessidade global de diversificar as fontes de fornecimento. No médio e longo prazo, se tem que encorajar principalmente as operadoras a investir mais em E&P (exploração e produção)”, apontou.




