No final de março, missão da Abeemar esteve no estaleiro da Ecovix, que tem uma das principais carteiras do setor naval, com encomendas de navios da Transpetro e outros serviços como reparos e o desmantelamento da antiga plataforma P-32
Representantes da indústria naval e offshore participaram, no final de março, de uma visita técnica ao Estaleiro Rio Grande (ERG), no Rio Grande do Sul. Eles destacaram a retomada das atividades de construção no país e esperam novas oportunidades para atender às encomendas que vêm sendo demandadas, principalmente pela Petrobras e pela Transpetro. A ida ao estaleiro da Ecovix fez parte de uma missão organizada pela Associação Brasileira das Empresas da Economia do Mar (Abeemar), com apoio do Sindicato Nacional da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval).
O presidente da Abeemar, João Azeredo, disse à Portos e Navios que o Estaleiro Rio Grande é relevante dada sua carteira de encomendas e a grande demanda de oportunidades para desenvolvimento de fornecedores estabelecidos no Brasil. “Existe uma demanda grande para desenvolver fornecedores. Nossa equipe foi bem recebida e algumas empresas relataram que saíram de lá com pedidos de cotação. Também visitamos o Tecon Rio Grande e a refinaria”, contou Azeredo, que também é vice-presidente do Sinaval.
Azeredo falou que a viagem a Rio Grande fez parte do programa de visitas técnicas da Abeemar que ocorrerão nos principais estaleiros e empresas do setor ao longo de 2026, aproveitando o momento de aquecimento da indústria. Ele acrescentou que, em 2025, ocorreram em torno de 17 visitas a estaleiros de diferentes perfis e regiões do Brasil, com apoio do Sinaval. No radar, além de Rio Grande, estão polos como Santa Catarina (Itajaí/Navegantes), Rio de Janeiro (Rio, Niterói e Angra), Espírito Santo (Aracruz), Bahia (Enseada), Ceará (Inace) e instalações da região amazônica.
O vice-presidente da Câmara setorial de equipamentos navais, offshore e onshore da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (CSENO/Abimaq), Bruno Galhardo (Roxtec Latin America), avalia que a missão da Abeemar foi uma oportunidade de encontrar vários players relevantes do mercado que estão fortemente ligados à retomada da construção naval no Brasil.
No estaleiro Ecovix, os representantes da indústria visitaram o dique onde a antiga plataforma P-32 está sendo desmantelada e o ‘ERG2’, onde viram as iniciativas do estaleiro para revitalizar áreas importantes do parque fabril visando o início das construções dos petroleiros Handy, dos gaseiros e dos navios classe MR1 (Medium Range 1) da Transpetro, que estão em diferentes estágios de contratação.
O programa Mar Aberto, da Petrobras, busca expandir a capacidade logística nacional e movimentar o mercado de construção nos próximos anos. A atual carteira do ERG tem para construção 4 Handy, que serão finalizados no Estaleiro Mac Laren, em Niterói (RJ), que integra o consórcio ‘Marenova’, além de 5 gaseiros e 4 MR1 destinados ao estaleiro da Ecovix.
Galhardo disse que a CSENO/Abimaq espera um volume expressivo de compras em todas as áreas, desde equipamentos para áreas de elétrica, automação e integração de sistemas, bem como, sistemas de HVAC, válvulas, bombas, sistemas de detecção de gás, entre tantos outros.
“As compras serão feitas internacionalmente, mas existe bastante espaço para fornecedores nacionais, pois nossa indústria possui expertise e capacidade de atendimento local em muitas dessas áreas”, afirmou. Ele acrescentou que os projetos também vão gerar muitos empregos e movimentar a cadeia de serviços na cidade de Rio Grande, atraindo novamente trabalhadores da área naval, o que será importante para o crescimento da região e do Brasil.
Além do estaleiro, o grupo visitou o terminal de contêineres operado pela Wilson Sons (Tecon Rio Grande) e a Refinaria de Petróleo Riograndense, que se tornará a primeira de biorefino do Brasil nos próximos anos, produzindo combustível sustentável para aviação — SAF (Sustainable Aviation Fuel) e que, nesse reposicionamento estratégico receberá investimentos na monta de R$ 8 bilhões, a serem aportados nos próximos anos.
O vice-presidente da CSENO/Abimaq acredita que a indústria de máquinas e equipamentos nacional e internacional, que investe no Brasil, possui know how técnico para fornecimento a todos esses projetos. “A grande questão é equalizar disparidades de custos locais em comparação aos custos de outros países para que sejamos competitivos financeiramente aos olhos das empresas que possuem os grandes projetos de construção naval no Brasil”, apontou Galhardo.
Ele considera que o exemplo da Transpetro tem sido bem sucedido, com a utilização de uma estratégia de equalização em suas licitações, onde aplica critérios financeiros, como impostos de importação e depreciação acelerada, para tornar propostas de estaleiros nacionais competitivas frente aos internacionais. “Acreditamos que iniciativas como essa podem ser usadas também quando pensamos no fornecimento de máquinas e equipamentos nacionais ou de empresas internacionais que investem no Brasil”, analisou.
A câmara setorial da Abimaq observa uma carteira de construção robusta do Sistema Petrobras, que abrange projetos da Transpetro, 18 empurradores que serão construídos no estaleiro Indústria Naval Catarinense — INC (SC), bem como diversos PSVs (transporte de suprimentos) sendo construídos nos estaleiros Navship e Detroit, os dois também em Santa Catarina.
Nesta semana, a Petrobras aprovou a proposta técnica da empresa SBM para a construção e operação dos dois FPSOs (Seap I e Seap II), que atuarão na produção de petróleo e gás na bacia Sergipe-Alagoas. “O mercado também aguarda com grande expectativa os próximos Bids de FPSOs da Petrobras, mais precisamente P-88 e P-91, onde acreditamos que existirão oportunidades de construção de alguns módulos em estaleiros nacionais”, projetou Galhardo.
O VP da CSENO entende que sempre há espaço para aumentar o conteúdo local das próximas embarcações e que, para isso, associações como a Abimaq e a Abeemar são importantes, ao aproximar os players demandantes do mercado à seus associados, que são basicamente representados por empresas fornecedoras de bens e serviços do setor.
“Num momento de retomada como este é fundamental aprimorar o approach comercial dos fornecedores, aumentando sua visibilidade junto aos grandes projetos e empresas para difusão de suas tecnologias e vantagens competitivas. A máxima ‘quem não é visto não é lembrado’ se aplica em momentos como este”, comentou Galhardo.
Em contrapartida, ele defende que os demandantes permitam que os fornecedores possam apresentar suas soluções e, em conjunto, possam desenvolver relações comerciais de longo prazo.
Outro ponto importante, segundo Galhardo, é que o conteúdo local também se refere à soberania de uma nação, assunto o qual considera relevante no momento geopolítico mundial. “O fortalecimento da indústria local mitiga riscos de falta de abastecimento em momentos de crise e deve ser encarado com seriedade pelos governantes e decisores empresariais”, alertou.






