O almirante Alexandre Rabello, chefe da Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha (DGDNTM), afirmou, em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, que o Brasil não pode abrir mão do submarino nuclear e que informações sensíveis do projeto não devem ser reveladas a organismos internacionais, mesmo diante das pressões da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O projeto, que completa 47 anos em 2026, enfrenta uma batalha dupla: por recursos no front doméstico e por soberania no front diplomático.
Um projeto de R$ 40 bilhões e data de entrega incerta
O submarino nuclear brasileiro ainda não chegou perto do mar. Desde 2008, o Brasil investiu aproximadamente R$ 40 bilhões no programa — que também inclui a construção de quatro submarinos convencionais e de um estaleiro em Itaguaí, no Rio de Janeiro. A data de conclusão original, prevista para 2024, foi adiada para 2033 e, agora, para 2037.
“Não vejo risco do projeto ser paralisado, mas, se o nível de investimento for mantido, o ritmo aponta para mais tempo de execução. É contra isso que temos batalhado”, afirmou Rabello.
A Marinha pediu R$ 1 bilhão no orçamento de 2026 para evitar interrupções. Segundo o almirante, caso o aporte necessário não seja assegurado, um novo atraso é inevitável. “À medida que você precisa de X e recebe X menos alguma coisa, terá que ajustar.”
Como o projeto funciona hoje

O prédio do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), que pertence à Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha (DDNM), em Iperó (SP)
Atualmente, técnicos civis e militares concentram esforços na montagem do Laboratório de Geração Nucleoelétrica (Labgene), em Iperó, no interior de São Paulo. Ali será construído em terra um protótipo do reator e do sistema de propulsão para testes de eficiência e segurança. A meta é colocar o reator em funcionamento nos próximos cinco anos e iniciar a construção do casco em 2027, com o lançamento previsto para 2037.
O Brasil já detém quase toda a tecnologia necessária: jazidas de urânio, capacidade de enriquecimento, transformação em combustível e um projeto nacional de reator. O submarino será armado apenas com torpedos convencionais — não com mísseis nucleares —, em cumprimento ao Tratado de Não-Proliferação (TNP).
A batalha com a AIEA: o que é inegociável
A agência internacional exige que o Brasil aceite inspeções para garantir que o projeto não seja utilizado para fins bélicos nucleares. O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, já defendeu publicamente um regime rígido de fiscalização, incluindo o acesso ao próprio submarino e a adesão a protocolos adicionais de inspeção.
Rabello disse ser pessoalmente contrário a assinar esses protocolos. “Aquilo que compromete a defesa do Brasil não pode ser negociado nem aceito pelo país”, afirmou. O almirante reconhece que um consenso é obrigatório, dado o compromisso brasileiro com o TNP, mas defende que a negociação se limite ao necessário para comprovar o caráter pacífico do programa. “É uma questão de negociar até onde a gente pode mostrar.”
Segundo ele, o Brasil já permite inspeções da AIEA em suas instalações em Iperó — algo incomum em programas nucleares militares. “O Brasil é um dos poucos países que disponibilizaram suas instalações militares para inspeções da AIEA.”
Ataques cibernéticos e espionagem
Rabello confirmou que o programa já sofreu tentativas de invasão cibernética, embora sem comprometimento de informações sensíveis. “Já identificamos. Nem todas são tão intrusivas. A maioria são tentativas semelhantes às que ocorrem no sistema financeiro.” Segundo ele, as ameaças não foram atribuídas a Estados, mas a atores não estatais.
Por que o submarino é ainda mais necessário agora

O casco do submarino nuclear brasileiro (SN-BR) empregará muitas tecnologias absorvidas na construção da classe Riachuelo (S-BR) da Marinha do Brasil
Diante da instabilidade geopolítica gerada pela guerra na Ucrânia e pelo conflito no Irã, Rabello avaliou que o projeto ganhou relevância estratégica. “O mar é a nossa fronteira mais vulnerável. Dispor de um elemento que traga alguma forma de dissuasão, como é o caso do submarino nuclear, traz ao projeto uma relevância maior num mundo cada vez mais instável.”
O almirante defendeu que o Brasil deveria ter ao menos três submarinos nucleares — número que permitiria manter sempre pelo menos um em operação. Quanto à nova política de segurança nacional americana, que aponta para reforço da influência dos EUA no hemisfério ocidental, Rabello disse reconhecer as preocupações políticas, mas classificou os EUA como “parceiros seculares” da Marinha brasileira.
“Não faz sentido pensarmos em orçamentos absurdamente vultosos para a defesa do Brasil, considerando outras necessidades do país, mas precisamos ter uma capacidade mínima de dissuasão”, concluiu. “O Brasil não pode abrir mão dessa tecnologia e desse ativo militar.”






