Para presidente da Transpetro, mecanismos de equalização contribuíram para que maior parte das embarcações do Mar Aberto tenha sido contratada para construção no Brasil
A renovação da frota da Transpetro começou a ganhar forma efetivamente com a compra de equipamentos, o corte de chapas e o início das obras dos primeiros petroleiros no Estaleiro Rio Grande (RS) em 2026. Em menos de quatro anos, a empresa contratou no mercado brasileiro um total de 13 navios, 18 barcaças e 18 empurradores que integram o ‘Mar Aberto’, programa de expansão e modernização da navegação do Sistema Petrobras. Mais três gaseiros serão construídos na China. O presidente da Transpetro, Sérgio Bacci, destacou que a estratégia foi realizar licitações internacionais abertas, permitindo a participação de estaleiros brasileiros e estrangeiros que atendessem aos requisitos técnicos, econômicos e jurídicos estabelecidos nos editais.
Ele ressaltou que, para assegurar condições competitivas, os editais incorporaram mecanismos de equalização que consideram diferenças tributárias, depreciação acelerada e as condições de financiamento disponíveis no momento da apresentação das propostas, sobretudo a possibilidade de utilização de recursos do Fundo da Marinha Mercante (FMM).
“Esse modelo permitiu que estaleiros nacionais competissem em igualdade de condições com estaleiros internacionais. Como resultado, a maior parte das embarcações do programa será construída no Brasil, combinando competitividade, eficiência e atendimento às necessidades operacionais da Transpetro”, afirmou Bacci, em entrevista à Portos e Navios.
As novas embarcações já são projetadas para atender às exigências de descarbonização, com mais eficiência e potencial de reduzir, em até 30%, as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Segundo Bacci, em vez de apostar em um único combustível, os projetos foram concebidos para que a frota possa acompanhar a evolução das diferentes soluções energéticas ao longo de sua vida útil.
O presidente disse à reportagem que o cronograma garante previsibilidade na expansão da frota e avanço contínuo do programa de renovação. E que os recursos necessários para a execução dos contratos já firmados estão previstos na carteira de investimentos da Petrobras. Bacci confirmou que a Transpetro estuda a possibilidade de novas aquisições de navios, mas que isso depende de uma série de fatores técnicos e econômicos, além das condições de mercado, a serem avaliados junto à Petrobras.
Confira abaixo a entrevista do presidente da Transpetro.
Portos e Navios: Nas primeiras falas e apresentações da sua gestão sobre o então ‘TP25’, a Transpetro detalhou suas demandas e o cenário da indústria local. Também havia desafios em relação à governança e leis que precisavam ser discutidas para que a contratação de embarcações se tornasse realidade. Nesses mais de três anos, quais foram os principais percalços que a empresa enfrentou para viabilizar o programa de renovação e modernização da frota?
Sérgio Bacci: Em pouco mais de três anos, a Transpetro estruturou e colocou em prática um dos maiores programas de renovação da frota de sua história, com a contratação de quatro navios Handy, oito gaseiros, 18 barcaças, 18 empurradores e quatro navios da classe MR1 (Medium Range 1).
O principal desafio foi construir um modelo de contratação que reunisse segurança jurídica, governança, competitividade e capacidade de execução. Isso exigiu o aperfeiçoamento dos processos internos, diálogo permanente com os órgãos de controle, coordenação entre diferentes áreas da companhia e articulação com diversos atores envolvidos na viabilização dos projetos.
Outro ponto importante foi estruturar licitações capazes de atrair ampla concorrência e garantir as melhores condições para a companhia, preservando a transparência e o rigor técnico em todas as etapas das contratações.
Nesse processo, também foi necessário considerar o contexto da indústria naval brasileira, que vinha de um longo período de baixa demanda. Os estaleiros precisaram recompor gradualmente equipes, capacidades produtivas e cadeias de fornecimento para atender ao novo ciclo de encomendas. E tivemos o apoio sempre constante da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, que impulsionou tudo que estamos fazendo para ampliar e renovar a frota do Sistema Petrobras.
PN: Os editais internacionais previram a possibilidade de construção em estaleiros no Brasil. Nas etapas seguintes, a Transpetro levou em consideração critérios de equalização de custos que viabilizaram a contratação de navios, barcaças e empurradores em estaleiros locais. Quais aspectos levaram a Transpetro a apostar na possibilidade construção no Brasil, sobretudo para os navios?
Bacci: O programa Mar Aberto foi estruturado para atender às necessidades operacionais da Petrobras e da Transpetro, ampliando a capacidade logística da companhia, reduzindo a exposição ao mercado de afretamento e incorporando embarcações mais modernas, eficientes e alinhadas aos desafios da transição energética.
Desde o início, a estratégia foi realizar licitações internacionais abertas, permitindo a participação de estaleiros brasileiros e estrangeiros que atendessem aos requisitos técnicos, econômicos e jurídicos estabelecidos nos editais. O objetivo sempre foi garantir ampla concorrência e contratar as melhores soluções para a companhia.
Para assegurar condições competitivas, os editais incorporaram mecanismos de equalização que consideram diferenças tributárias, depreciação acelerada e as condições de financiamento disponíveis no momento da apresentação das propostas. Entre esses instrumentos, destacamos a possibilidade de utilização de recursos do Fundo da Marinha Mercante (FMM), uma política pública de fomento à indústria naval brasileira, com condições compatíveis às praticadas por outros países que também apoiam seu setor naval.
Esse modelo permitiu que estaleiros nacionais competissem em igualdade de condições com estaleiros internacionais. Como resultado, a maior parte das embarcações do programa será construída no Brasil, combinando competitividade, eficiência e atendimento às necessidades operacionais da Transpetro.
PN: Após o início do ‘TP25’ e do atual ‘Mar Aberto’, o cenário geopolítico se agravou e as tensões externas levaram o mundo a ampliar as discussões sobre segurança energética. Tudo isso em meio às discussões sobre descarbonização do setor marítimo na IMO. Na visão da Transpetro, o quanto é importante para esses projetos encontrar soluções locais para o transporte de combustíveis e para o abastecimento das embarcações?
Bacci: Para a Transpetro, o fortalecimento de soluções locais é estratégico para garantir maior segurança energética e logística, especialmente diante da baixa disponibilidade de embarcações e da volatilidade dos fretes. A ampliação da frota própria traz mais previsibilidade operacional, reduz a exposição ao mercado de afretamento e apoia o crescimento da produção da Petrobras.
No campo ambiental, as novas embarcações já são projetadas para atender às exigências de descarbonização, com maior eficiência e potencial de reduzir em até 30% as emissões de gases de efeito estufa.
PN: A escolha dos chamados ‘combustíveis do futuro’ depende de decisões de diversos atores internacionais e locais, o que impactará a navegação em todo o mundo. Uma das soluções em discussão, principalmente no Brasil, é o etanol. O quanto esses fatores influenciaram a configuração multicombustível dos futuros navios da frota da Transpetro?
Bacci: As discussões sobre os chamados combustíveis do futuro influenciaram diretamente o desenvolvimento dos novos navios da Transpetro. Como a transição energética no transporte marítimo ainda está em evolução e depende de definições regulatórias, tecnológicas e de mercado em escala global, a companhia optou por uma estratégia baseada na flexibilidade. Em vez de apostar em um único combustível, os projetos foram concebidos para que a frota possa acompanhar a evolução das diferentes soluções energéticas ao longo de sua vida útil.
As encomendas do Programa Mar Aberto estão em sintonia com a estratégia da Organização Marítima Internacional (IMO) para redução das emissões de gases de efeito estufa no transporte marítimo e com a meta de neutralidade das emissões líquidas até 2050. Por isso, todas as novas embarcações incorporam tecnologias voltadas à eficiência energética, à redução do consumo de combustível e à diminuição da pegada de carbono.
Mais do que escolher um combustível específico, a estratégia da Transpetro foi desenvolver uma frota preparada para diferentes alternativas tecnológicas, preservando flexibilidade operacional, eficiência e aderência à evolução das regulamentações internacionais para a descarbonização do transporte marítimo.
PN: Hoje, como está a questão da disponibilidade de recursos da Transpetro para a construção dos navios já contratados?
Bacci: Os recursos necessários para a execução dos contratos já firmados estão previstos na carteira de investimentos da Petrobras e seguem disponíveis para o andamento dos projetos. A companhia já realizou desembolsos iniciais da ordem de R$ 100 milhões para atividades como aquisição de aço, contratação de seguros e demais providências necessárias ao início das obras.
As liberações financeiras ocorrem de forma planejada, em conformidade com os marcos contratuais e a evolução física dos projetos, observando os processos de governança, controle e fiscalização adotados pela companhia.
Os recursos destinados aos contratos já celebrados estão assegurados, garantindo a continuidade das etapas previstas para a construção das embarcações.
PN: Como está a situação da contratação do financiamento para essas obras?
Bacci: No âmbito do Programa Mar Aberto, o Fundo da Marinha Mercante (FMM) já aprovou recursos para a construção de quatro navios da classe Handy, cinco navios gaseiros, quatro navios MR1 e 36 embarcações da navegação interior, sendo 18 barcaças e 18 empurradores, totalizando cerca de R$ 5,2 bilhões em projetos.
A possibilidade de utilização de recursos do FMM foi considerada na estruturação das licitações. O fundo é um instrumento de financiamento destinado ao setor naval e opera de acordo com regras e condições estabelecidas pelos órgãos competentes.
A contratação dos financiamentos junto ao FMM ocorre de forma gradual, em consonância com o avanço dos processos licitatórios, a formalização dos contratos e a evolução das etapas de implantação de cada empreendimento.
PN: Qual a expectativa do cronograma de entrega e entrada em operação dos futuros navios da Transpetro? (Handymax, gaseiros, MR1, barcaças e empurradores)
Bacci: O cronograma de entrega das novas embarcações está organizado de forma escalonada e contínua. Os navios Handy têm entrada em operação prevista para maio de 2028, enquanto os gaseiros e os navios MR1, que também serão construídos no Estaleiro Rio Grande, terão a primeira unidade entregue em até 33 meses após a eficácia contratual, com novas entregas a cada seis meses.
No segmento de navegação interior, os empurradores entram em operação a partir de outubro de 2027, e as barcaças serão implantadas em três lotes, com operações entre novembro de 2026 e fevereiro de 2028.
Esse cronograma garante previsibilidade na expansão da frota e avanço contínuo do programa de renovação.
PN: Para os 9 aliviadores (afretados) e para 3 navios gaseiros, a Transpetro entendeu que as unidades deveriam ser construídas em outros países (Coreia e China, respectivamente). Quais fatores pesaram nessa decisão da companhia?
Bacci: No caso dos navios gaseiros, não houve uma decisão prévia pela construção das embarcações no exterior. A contratação ocorreu por meio de licitação pública internacional, aberta à participação de estaleiros brasileiros e estrangeiros que atendessem aos requisitos técnicos, econômicos e jurídicos estabelecidos no edital.
O processo foi dividido em dois lotes, dos quais um foi vencido pelo Estaleiro Rio Grande, no Brasil, e outro pelo estaleiro Zhoushan Dashenzhou Shipbuilding Co., na China. O resultado refletiu os critérios previstos na licitação, com o objetivo de assegurar as melhores condições para atender às necessidades operacionais da Transpetro e do Sistema Petrobras.
Já no caso dos navios aliviadores Suezmax DP2, a contratação considerou aspectos como disponibilidade de mercado, especificações técnicas, competitividade e cronograma de atendimento da demanda logística. Trata-se de embarcações altamente especializadas, cuja construção demanda tecnologia avançada, requisitos específicos de engenharia e infraestrutura naval dedicada. Nesse contexto, a contratação internacional mostrou-se a alternativa mais adequada para assegurar o atendimento aos requisitos técnicos e aos prazos necessários ao suporte das operações do Sistema Petrobras.
PN: Entre alguns fornecedores e construtores, há avaliação de que o período de 10 anos de escassez de grandes projetos impactou a competitividade da indústria de navipeças no Brasil. E que isso faz com que muitos itens precisem ser importados, por falta de similares no país. Existe um esforço e/ou metas para aumentar o conteúdo local desses projetos?
Bacci: O Programa Mar Aberto foi estruturado para renovar e ampliar a frota do Sistema Petrobras, atendendo às necessidades operacionais e logísticas da companhia. A definição dos equipamentos e componentes utilizados em cada projeto faz parte do processo de construção conduzido pelos estaleiros, observados os requisitos técnicos e contratuais estabelecidos pela Transpetro.
As embarcações contratadas em estaleiros brasileiros podem gerar oportunidades para fornecedores instalados no país, à medida que os projetos avançam. No entanto, a contratação de peças e equipamentos é de responsabilidade dos estaleiros, que definem suas cadeias de suprimentos de acordo com as especificações técnicas e as condições de mercado.
PN: A Transpetro já tem em estudo a possibilidade de contratar mais embarcações? De que tipo?
Bacci: Além das embarcações já contratadas, a Transpetro mantém estudos relacionados à possível aquisição de navios da classe Medium Range (MR2), prevista no Plano de Negócios da Petrobras para o período de 2026 a 2030. Como o projeto ainda está em fase de estudo, eventuais contratações dependerão das avaliações técnicas, das necessidades operacionais, da estratégia de negócio e das condições de mercado.







