Agentes discutem conexão da indústria com carteira de descomissionamento

  • 31/08/2026

Painel da Navalshore destacou planejamento e integração de etapas, além de incentivar cadeia de suprimentos e serviços a se preparar para demanda crescente de atividades ligadas ao desmantelamento e reciclagem

O painel sobre descomissionamento da 20ª Navalshore discutiu como conectar a cadeia de suprimentos e prestadores de serviços às oportunidades ligadas ao desmantelamento e reciclagem de embarcações e plataformas no Brasil. A avaliação dos painelistas é que a carteira bilionária de investimentos prevista para os próximos anos pode se reverter em uma agenda de investimentos, inovação e desenvolvimento industrial.

Mauro Destri, CEO da Destri Energy, identifica quatro camadas no fornecimento de bens e serviços no país que precisam amadurecer formas de atuar nos nichos dessa cadeia, que passa pela desativação, descomissionamento, desmantelamento, disposição e descarte. Segundo o especialista, elas são representadas pelas operadoras e grandes empresas (I); prestadores de serviços (II); Vendedores de peças e sobressalentes (III); e Prestadores de serviços básicos como alimentação e segurança (IV).

Ele identifica que todo o processo não termina quando a unidade deixa de produzir ou é retirada do campo,e sim quando seus materiais recebem destinação segura, rastreável e economicamente eficiente. Após o descomissionamento e a chegada à instalação para etapa de corte, começa outra engenharia que é transformar esse ativo em um fluxo de material controlado. Destri lembrou que há muitos processos até a obtenção do certificado de destinação final (CDF). “Economia circular só existe quando existe uma rota técnica, ambiental e economicamente viável (…). Retirar é apenas parte do trabalho. É preciso provar onde tudo foi parar”, explicou Destri.

O consultor chamou a atenção que o primeiro corte realizado é consequência de decisões de engenharia tomadas bem antes. Ele avalia que cada instalação, como porto ou estaleiro, precisa adotar uma espécie de modelo ‘fordista’ em suas dependências, para organizar o recebimento, a descontaminação e o armazenamento. “Quando a gente recebe o ativo é apenas o início. A cadeia termina quando seus materiais têm uma destinação”, disse Destri.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estima R$ 370 bilhões de investimentos em descomissionamento no Brasil entre 2029 e 2059, considerando um universo de sete atividades principais ligadas à desmobilização. Desse montante, R$ 75 bilhões estão previstos para o período entre 2026 e 2030. Os dados são entregues pelas operadoras à agência e estão sujeitos a mudanças e variáveis.

“Estamos trabalhando para termos uma validação desses números. A gente sabe que algumas [operadoras] podem antecipar e estão começando a trabalhar para isso. Outras pode ser que não aconteça nesse período”, comentou a chefe da unidade de planejamento econômico do descomissionamento da ANP, Karen Alves. Ela vê espaço para o Brasil criar, cada vez mais, um ambiente regulatório e um ambiente jurídico seguro para que essas atividades, na medida do possível, sejam realizadas no país.

“Acredito que o descomissionamento está redefinindo um novo mercado, aliado a todas as questões de sustentabilidade e provocando toda uma transformação social, econômica, técnica (…). Antes víamos poucas pessoas envolvidas no tema, poucos projetos e isso foi ganhando corpo e novos negócios”, analisou Karen.

A advogada Fabrine Hartog, que moderou o debate da conferência da Navalshore, observou que o plano estratégico da Petrobras (2026-2031) já prevê cerca de um quinto dos investimentos em exploração e produção destinados a projetos de descomissionamento. “O mercado de descomissionamento é um mercado que deixa de ser teórico. Ele é um mercado que já está em construção, que está acontecendo”, disse Fabrine, que atua no escritório Souto Correa.

Para o professor adjunto do Centro de Estudo para Sistemas Sustentáveis da Universidade Federal Fluminense (CESS/UFF), Newton Pereira, o Brasil já demonstrou que tem condições plenas de executar essa atividade de reciclagem de embarcações com bastante segurança e qualidade, como no recente caso da P-32, executado pela Ecovix no Estaleiro Rio Grande (RS). Pereira, que é um dos autores do projeto de lei 1.584/2021, sobre essa atividade no Brasil, destacou que as discussões regulatórias e pesquisas já proporcionaram conhecimento, projetos e formação de pessoas, além de parcerias acadêmicas, técnicas e profissionais.

O professor mencionou que, mesmo assim, acidentes recentes em instalações de reciclagem em Bangladesh e na Índia devem ser analisados. Ele chamou a atenção que essas ocorrências provocaram perdas humanas e impacto ambiental, mesmo em instalações autorizadas pela Convenção de Hong Kong (HKC), em vigor desde meados de 2025.

“O desafio para a reciclagem sustentável é global, mas o Brasil pode ser líder porque temos aqui uma gestão ambiental muito forte. Temos as agências reguladoras que fazem o seu papel, bem como os órgãos ambientais, que também têm uma interface muito grande nessa atividade”, comentou Pereira.

O diretor comercial da OceanPact, Erik Cunha, avalia que, com o aquecimento do setor de exploração e produção (E&P) e com o grande número de descomissionamentos previstos para os próximos anos, existe uma demanda para a qual a cadeia de suprimentos e os prestadores de serviço no Brasil ainda não estão preparados.

“A gente não tem nem empresa preparada, nem pessoal ainda pronto para poder atender a toda essa demanda. É uma demanda muito grande e uma oportunidade porque é um negócio novo”, analisou.

Ele destacou que a OceanPact atua em três projetos simultâneos, que estão em momentos diferentes. Um dos desafios, segundo Cunha, são as particularidades de cada desativação. A empresa montou um modelo integrando a gestão de projeto à gestão de riscos.

“Juntamos a estrutura de engenharia, de projeto e de riscos, visando fazer uma interligação, uma sinergia para gerar uma aprendizagem contínua, já com base na curva de aprendizagem que a gente está tendo nos nossos projetos”, contou.

Uma das estratégias adotadas pela Petrobras é um modelo integrado de EPRD (engenharia, preparação, recolhimento e destinação final), no qual a operadora contrata uma única empresa para reunir essas atividades.

“Obviamente, você subcontrata, mas o modelo de negócio está integrado e o modelo de gestão está integrado. Aí você consegue reduzir ou quase eliminar alguma das lacunas. Internalizamos esse conceito para dentro da OceanPact”, disse Cunha.

Fonte: Portos e Navios – Danilo Olinveira