Conversa com Alexandre Lindenmeyer, candidato a deputado federal pelo PT

  • 08/09/2026

Segundo o deputado federal Alexandre Lindenmeyer, candidato à reeleição, o Brasil precisa desenvolver um fundo garantidor que ofereça garantias com juros mais baixos aos estaleiros.

Conversamos com Alexandre Lindenmeyer, candidato à reeleição como deputado federal pelo Rio Grande do Sul pelo PT. Lindenmeyer tem 72 anos, nasceu em Rio Grande (RS), e entre os muitos cargos que ocupou, foi prefeito e vereador de Rio Grande, deputado estadual no Rio Grande do Sul, e, atualmente, está no seu primeiro mandato como deputado federal, também pelo Rio Grande do Sul.

Quais serão as suas prioridades em um novo mandato?

Uma das minhas prioridades é o aprimoramento do que foi feito em relação a política de desenvolvimento da indústria naval, tanto no que se refere a produção para hidrovias, como para oceano, como navios e plataformas. Quando nós propusemos a frente parlamentar em 2023, no início do meu mandato, o objetivo era ter um diálogo permanente com os trabalhadores, a indústria e o setor governamental para que pudéssemos fazer os ajustes necessários na legislação nacional de forma a que a indústria naval tivesse competitividade para disputar editais internacionais.

De lá para cá, nós vimos a retomada do setor. Por exemplo, em 2023, o setor tinha cerca de 15 mil trabalhadores, sendo que hoje, segundo o Sinaval, ele já possui mais de 66 mil trabalhadores envolvidos com a construção, manutenção, desmantelamento e descomissionamento de embarcações. Cabe destacar que quando eu falo de construção, eu me refiro à Marinha do Brasil, à Transpetro e ao setor privado. Por exemplo, nesse período o Fundo de Marinha Mercante investiu R$ 4 bilhões, o maior valor até então, na hidrovia nacional, com a construção de 400 barcaças e de 15 navios empurradores.

Independente disso, nós precisamos avançar em ações como a criação de um fundo garantidor que possa oferecer garantias com juros mais baixos para que os estaleiros nacionais possam construir navios de apoio, barcos de transporte de combustíveis e de minérios, e voltar a construir, a médio prazo, embarcações e plataformas para a Petrobras. Vale ressaltar que a construção de uma plataforma gera muitos empregos na cadeia de produção da indústria de suprimento, agrega muita tecnologia e fortalece as relações com a própria academia, com a formação de profissionais dentro das universidades, institutos federais e parques tecnológicos.

Por fim, tudo isso dialoga com a soberania nacional, já que temos uma grande frota de embarcações afretadas. Na minha visão, a Transpetro precisa ampliar a sua frota de embarcações próprias para ter autonomia no transporte de combustíveis, já que isso é diminuição de custos, tanto para a empresa quanto para a Petrobras.

Como o senhor avalia o seu mandato atual?

No meu primeiro mandato como deputado federal, eu vivi de forma muito intensa o trabalho na Câmara dos Deputados, participando de várias comissões, como a Comissão do Trabalho, da Pessoa Idosa e de Viação e Transportes. Além disso, eu estou presidente da Comissão de Fiscalização de Finanças e Controle da Câmara Federal. O problema é que por mais que eu esteja feliz com o que foi feito, eu sempre acho que existem mais coisas a serem feitas.

Por exemplo, eu fui relator de um projeto de lei, que já foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que vai gerar uma nova cadeia de empregos na área de desmantelamento e descomissionamento de embarcações. Apenas para que você tenha uma ideia, na Baía de Guanabara, existem mais de 100 navios abandonados que precisam ter uma destinação. A partir dessa lei, nós vamos ter um novo arcabouço jurídico que vai tratar da destinação adequada dessas embarcações com sustentabilidade ambiental.

Ao mesmo tempo, eu tenho trabalhado muito na defesa da agricultura familiar, da produção orgânica e da segurança alimentar, pois esses são temas que me motivam muito. Além disso, eu sou autor de mais de quarenta projetos de lei que estão tramitando na Câmara, e que tratam de questões relacionadas ao direito do consumidor, previdenciário e do trabalho; à causa animal e ao autismo. Isso sem contar as mais de duas dezenas de projetos em que sou co-autor.

Qual a sua avaliação sobre o atual estado da indústria naval brasileira?

O momento do setor é de retomada, mas ainda temos desafios relacionados, principalmente, a constituição de um fundo garantidor e a construção, de forma gradativa, da cadeia de suprimentos. Com isso, nós poderemos consolidar uma Política de Estado, que não esteja sujeita a troca de governos, e que trate da exportação de empregos e de renda para outros países, principalmente asiáticos, em detrimento do interesse brasileiro. Por exemplo, nos Estados Unidos, 100% das embarcações são construídas no país, e 100% das tripulações são estadunidenses.

Com relação ao Fundo de Marinha Mercante, entre 2023 e 2026, foram financiados quase R$ 15 bilhões para mais de 800 obras nesse setor. Esse tipo de financiamento desenvolve o setor e gera o volume de empregos que mencionei na primeira resposta.

Para que o setor naval possa se desenvolver mais, nós temos que trabalhar a questão da previsibilidade, já que estaleiros precisam ter contratos. Se eles tiverem uma carteira de negócios com previsão do que vai ser construído nos próximos anos, isso possibilitará uma melhor estruturação ao setor. Outro ponto é aumentar o conteúdo nacional, mas para isso nós precisamos fortalecer a cadeia de suprimentos. Nós também precisamos fortalecer a segurança jurídica para que as empresas tenham respaldo legal e não ocorram litígios.

Considerando a nossa conversa, o senhor gostaria de acrescentar algum ponto à sua entrevista?

Eu tenho me envolvido muito na parte de energia. Nós temos trabalhado na consolidação do projeto da primeira biorrefinaria da América Latina, 100% vegetal, que vai produzir combustível para aviação, SAF (Sustainable Aviation Fuel), e para navios. Outro assunto que tenho me envolvido é na utilização da indústria petroleira como alavanca para subsidiar a transição energética, com investimentos tanto em biorrefinarias, como em energia eólica, solar e das ondas.

Com relação às oportunidades, nós temos que trabalhar na questão da Economia Azul, que é uma fronteira subutilizada pelo Brasil. Isso porque não adianta dizer que o Brasil tem 5,8 milhões de quilômetros de águas, se o país não consegue fiscalizá-las e explorá-las de forma adequada e com respeito ambiental. Esse é um assunto que pode contribuir na geração de empregos e no desenvolvimento de tecnologias e das regiões, além de dialogar com a soberania.

Eu também gostaria de reiterar o meu compromisso com a agricultura familiar e com a produção orgânica, além de questões relacionadas ao autismo e às pessoas com deficiência.

Para encerrar, eu vou continuar trabalhando para que o Rio Grande do Sul tenha mais investimentos em infraestrutura, principalmente na retomada das ferrovias, já que o estado está isolado da malha ferroviária nacional. Outro prioridade é a ligação logística entre Rio Grande e São José do Norte, que vai possibilitar a expansão portuária na direção de São José do Norte.

Fonte: Monitor Mercantil – Jorge Priori
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