Ao todo, nova frota de fragatas terá 8 embarcações com mísseis antinavio Mansup, defesa antiaérea e torpedos para guerra submarina, além de sistema capaz de detectar mil alvos ao mesmo tempo
A Marinha do Brasil assina hoje (24-04-2026) com o ThyssenKrupp Marine Systems (TKMS) um memorando de entendimento (MoU) para a construção de mais quatro fragatas da classe Tamandaré no estaleiro que a empresa mantém em Itajaí, em Santa Catarina, em consórcio com o Grupo Embraer, que detém 25% do negócio. O contrato que deverá definir o valor do investimento da Marinha ainda não está definido, mas deve ultrapassar R$ 10 bilhões.
Com as novas fragatas, a frota desse tipo de embarcação da Marinha deve dobrar. A última do primeiro lote de quatro fragatas, a Mariz e Barros, começou a ser construída em 9 de janeiro no estaleiro, que deve concluir a terceira, a Cunha Moreira, em julho deste ano. A segunda delas, a Jerônimo Albuquerque, foi lançada em 2025 e está em testes, enquanto a primeira delas, a Tamandaré, será incorporada hoje à Marinha após dois anos de avaliações – os exames de tiros foram feitos na semana passada.
“A Fragata Tamandaré insere-se no contexto do fortalecimento da capacidade operacional da Marinha do Brasil, contribuindo de forma relevante para o monitoramento, a proteção e a defesa da Amazônia Azul”, disse o almirante de esquadra Edgar Luiz Siqueira Barbosa, diretor-geral do Material da Marinha (DGMM). “Trata-se de um meio naval concebido para atuar no controle de áreas marítimas, na proteção das infraestruturas críticas e na salvaguarda das linhas de comunicações marítimas, essenciais ao desenvolvimento nacional”, concluiu.
A Fragata Tamandaré e seus sistemas
Embarcação da Marinha é a primeira fabricada no Brasil entregue à Força Naval desde 1980; navio terá míssil antinavio nacional (Masup), canhões, torpedos, helicóptero e drone

Fonte: Marinha do Brasil e TKMS
A última fragata construída no Brasil e entregue à Marinha foi a União, da classe Niterói, incorporada à Força Naval em 1980. Ao mesmo tempo em que comemora o recebimento da nova embarcação, a Marinha e o TKMS anunciaram o MoU, após o ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores) e ter assinado com o titular da pasta da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, uma carta de intenções para a construção do segundo lote de fragatas. A carta fez parte da declaração conjunta feita pelo Brasil pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo primeiro-ministro alemão Friedrich Merz.
O CEO da TKMS, Oliver Burkhard, lembrou que a Marinha do Brasil é uma “parceira de longa data”.
“Desde a década de 1980, quando desenvolvemos conjuntamente os bem-sucedidos submarinos da classe Tupi, vemos a incorporação da fragata Tamandaré como um novo marco nessa trajetória”.

A fragata Tamandaré com seu canhão Oto Melara de 76 mm Super Rapid; ela deve ser equipada com o Sea Ceptor (míssil CAMM), para defesa aérea, e com os mísseis Mansup ER, contra navios Foto: Marinha do Brasil
Para ele, “avançar com um novo lote de fragatas é essencial para sustentar capacidades críticas e preservar o conhecimento desenvolvido por meio da transferência de tecnologia no âmbito do Programa Fragatas Classe Tamandaré”. Com o memorando de entendimento (MoU) assinado, a empresa e a Marinha passarão a negociar os termos do contrato. “A TKMS está pronta para dar continuidade a essa parceria com mais quatro navios adicionais”, afirmou o executivo.
A Tamandaré e suas armas
A fragata Tamandaré, a F-200, foi a primeira de sua classe a ser lançada ao mar. A cerimônia aconteceu em agosto de 2024. Os testes de aceitação de mar aconteceram de agosto a dezembro de 2025 – a última desse primeiro lote de quatro, a Mariz e Barros (F203), será entregue à Marinha em 2029 – o lançamento ao mar é previsto para novembro de 2027.
De acordo com a Marinha, com F203, “a TKMS Estaleiro Brasil Sul atinge o auge da produção prevista inicialmente para o PFCT, com as quatro primeiras embarcações do programa sendo produzidas simultaneamente, em território brasileiro, com alto índice de conteúdo local, consolidando a expertise nacional em tecnologia de defesa naval”.
Segundo a Marinha e o TKMS, a construção das fragatas gerou 2 mil empregos diretos e 6 mil indiretos, envolvendo cerca de mil fornecedores em todo o País – o conteúdo local atingiu R$ 4,8 bilhões, cerca de 40% do custo total das quatro primeiras embarcações. O sistema de gerenciamento de combate (CMS), por exemplo, foi desenvolvido em parceria pela Atech (grupo Embraer) e a alemã Atlas Elektronic GmbH.

A fragata Cunha Moreira durante a construção, em Santa Catarina; terceira embarcação da série deve ser concluída em junho Foto: Marinha do Brasil
É este sistema que integra sensores e armas para dar consciência situacional e garantir o emprego eficiente de armamentos, identificando ameaças e definindo qual a melhor opção para neutralizá-las. Todo seu código-fonte será entregue à Marinha. A Tamandaré e as demais fragatas de sua classe terão capacidade de deslocar 3,5 mil toneladas e vão operar um hangar para um helicóptero e um veículo aéreo não tripulado de pouso vertical.
Seus sistemas são capazes de operar em ambiente de superfície, aéreo e subsuperfície. Com comprimento de 107,2 metros, e uma autonomia de 5,5 mil milhas náuticas (cerca de 10 mil quilômetros), ela atinge 25 nós (cerca de 47 km/h) e sua tripulação é de 136 homens e mulheres. As fragatas devem operar os mísseis Mansup e Exocet (antinavio) e CAMM (antiaéreo). Também terão dois canhões, um de 30 mm e outro de 76 mm, além de lançadores de torpedos e metralhadoras pesadas.
Para a Marinha, a expansão do programa das fragatas é fundamental para a proteção da chamada Amazônia Azul, área de águas jurisdicionais brasileiras no Atlântico que somam 5,7 milhões de km², além da defesa das ilhas oceânicas do País e proteção das infraestruturas críticas e comunicações marítimas , “considerando que mais de 90% do nosso comércio exterior é realizado pelo mar”. Ao lado dos submarinos convencionais do Prosub, eles seriam os principais instrumentos de dissuasão de ameaças externas.

O míssil Mansup, com alcance de 70 km, embarcado em uma fragata da Marinha durante testes Foto: SIATT
Por fim, segundo Burkhard, o projeto das fragatas é “um forte sinal da profunda confiança entre a TKMS e a Marinha do Brasil e reflete a sólida cooperação entre o Brasil e a Alemanha, bem como o compromisso de longo prazo da TKMS com o Brasil”. “O projeto demonstra como a cooperação internacional estruturada pode fortalecer capacidades estratégicas ao mesmo tempo em que reforça a base industrial local.” Tudo isso em um momento em que tanto Alemanha quanto Brasil buscam cada vez mais autonomia na área de defesa após os abalos na aliança atlântica ocorridos após a posse de Donald Trump na presidência dos EUA.






