Secretário de segurança nuclear da Marinha do Brasil destaca estudos com microrreatores que buscam criação de modelos de porte compatível, em tamanho, que futuramente possam ser instalados em navios, plataformas e em outras aplicações
O uso de microrreatores nucleares embarcados será em médio prazo, em torno de uma década, alternativa para que embarcações e plataformas de exploração de petróleo e gás no mar alcancem eficiência energética e cumpram as determinações da Organização Marítima Internacional (IMO) para zerar as emissões de gases do efeito estufa (GEE). A previsão é do almirante Petronio Aguiar, secretário naval de segurança nuclear da Marinha do Brasil, que observa a tecnologia, que já é usada em navios militares há cerca de 80 anos, agora podendo ser desenvolvida para aplicação também em navios mercantes.
Segundo Petrônio Aguiar, já existe em desenvolvimento em diferentes países, inclusive no Brasil, projetos para a criação de Small Modular Reactors (SMB), os pequenos reatores modulares, que poderão ser usados tanto em navios como em plataformas. Além disso, países com economia mais forte estão inclinados a usar a energia nuclear em embarcações. Os estudos, informou o almirante, buscam a criação de modelos de porte compatível, em tamanho, para que possam ser instalados em navios, em plataformas e em outras aplicações. “Acreditamos muito que esses reatores existirão como produtos e serão usados no cenário marítimo e fluvial”, afirmou.
O oficial avalia que, por causa da necessidade de avançar em projetos de transição energética e de descarbonização, a tendência é de aceleração das pesquisas para que em breve os reatores estejam no mercado para serem opções para estaleiros, armadores e operadores de plataformas. “O mundo precisa passar por um processo de transição energética, e o uso da energia nuclear é uma opção”, comentou Petrônio, em entrevista à Portos e Navios.
A previsão do secretário é compartilhada pelo presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan), Celso Cunha, que lembra que o uso de microrreatores em embarcações já é antigo, mas apenas em navios militares. “A novidade é o uso em embarcações civis”, disse. Ele acrescentou que a Rússia já conta com navios quebra-gelo movidos à propulsão nuclear.
Cunha informou à reportagem que, além dos projetos para a criação de reatores de tamanho pequeno para serem instalados em navios e usados em sistemas de propulsão, há projetos em desenvolvimento de embarcações de apoio que serão usadas para fornecer energia a plataformas de exploração de petróleo e gás em alto-mar. Além disso, explicou, há previsão de que embarcações com reatores nucleares poderão ser usados como espécies de usinas para gerar eletricidades para cidades em regiões com obstáculos para instalar as redes convencionais de distribuição, como as mais remotas da Amazônia.
No Brasil, um passo para a criação de microrreatores está sendo dado em Santa Catarina, onde a empresa Diamante Energia, em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e um consórcio formado por universidades e outras instituições científicas, tecnológicas e de inovação, desenvolve o Microrreator Nuclear Brasileiro (MRB), projeto no qual estão sendo investidos R$ 50 milhões e cujo prazo de conclusão é de cerca de três anos. O equipamento, segundo informações da companhia, será capaz de gerar cinco megawatts (MW), poderá ser instalado em contêineres de 40 pés e terá autonomia de até 10 anos sem necessidade de reabastecimento.
Além disso, a Diamante explica que ele poderá ser fabricado em linhas de produção contínua, e a previsão é de estar disponível no mercado em prazo de oito a 10 anos. A expectativa da empresa é de que o microrreator seja capaz de abastecer cidades pequenas inteiras e regiões de cidades maiores, além de plataformas e outras estruturas, servindo ainda para estabilizar o fornecimento de energia a vários segmentos, como indústrias e usinas eólicas.
No caso brasileiro, para uso em plataformas no mar e embarcações, a instalação dependerá ainda de regulação, que deverá ser feita pela Marinha, que é órgão regulador de todas as atividades no mar e em rios, como ressaltou o almirante Petrônio. “A autoridade marítima é a Marinha e todos os assuntos ligados ao uso de energia nuclear em águas no Brasil é atribuição dela”, frisou.
O secretário explicou que essa regulação precisa levar em consideração todas as questões de segurança envolvida e, diferentemente de uma usina nuclear em terra, em que o foco é basicamente o reator, em plataformas e navios é preciso considerar todas as atividades, seja a exploração de petróleo e gás seja o transporte de mercadorias. Ele lembrou que navios e plataformas são estruturas móveis em ambientes instáveis e operadas por pessoas que não são especializadas no uso da energia nuclear e que a regulação precisa garantir segurança para todas as etapas da operação, incluindo a proteção ao meio ambiente.
O almirante ressaltou ainda que o uso de propulsão nuclear em navios que fazem rotas de longo curso demandará ainda regulação internacional e também dos países por cujas águas territoriais navegarão. Ele informou, no entanto, que a Agência Internacional de Energia Nuclear já se prepara para implementar regras para o segmento marítimo e que, desde o início do ano, a Organização Marítima Internacional (IMO) estuda atualizações do código nuclear, cujas normas mais recentes são de 1981. “Estamos acompanhando porque, quando a tecnologia estiver sendo usada, demandará padronização para muitos países”, projetou.
Petronio Aguiar vê o uso da energia como uma tendência não só para embarcações militares, como já acontece hoje, mas para garantir a transição e o abastecimento de energia a vários segmentos da economia, inclusive a partir de embarcações, como plataformas marítimas. Ele citou que na Rússia essas estruturas já são usadas para gerar eletricidade para algumas partes do país e, como Celso Cunha, presidente da Abdan, acredita que elas poderão servir para esse fim também no Brasil.
Ele também mencionou que a China é um dos países mais avançados no desenvolvimento de SMBs e que, por isso, há expectativa de que os equipamentos possam ser incorporados a novas embarcações construídas em estaleiros chineses. Além disso, disse que, no Brasil, a Petrobras já desenvolve estudos para ter plataformas produzidas no exterior com reatores nucleares para gerar eletricidade para plataformas de exploração de petróleo e gás.
O secretário naval de segurança nuclear da Marinha do Brasil afirmou que, com medidas de segurança adequadas, o uso da propulsão nuclear deve ser o melhor caminho para garantir que o setor marítimo avance para cumprir as exigência da IMO em relação à redução de emissões de gases de efeito estufa e à descarbonização. “A energia nuclear é a mais limpa e, normatizada, é muito segura”, garantiu Petrônio.






