Conteúdo local pode continuar sendo revisitado em futuros lotes do PFCT, diz Marinha

  • 01/06/2026

Força naval reafirma possibilidade de ampliar índices de novas fragatas, apesar do receio demonstrado por parte dos fornecedores de que modelo de contratação com ‘pacotes de equipamentos’ retire competitividade dos produtos nacionais

A Marinha do Brasil discute formas de ampliar o conteúdo local das próximas fragatas classe Tamandaré. Após a incorporação da primeira das quatro unidades (F200), o almirante de esquadra Marcos Sampaio Olsen, comandante da MB, mencionou a possibilidade de os índices chegarem a 60%. Entre fornecedores locais, no entanto, há empresas que acreditam que algumas questões, como prazos e a definição de grande parte dos itens, em pacotes já contratados, dificultam atingir esse objetivo de aumento de participação nacional nos projetos.

A F200, incorporada ao setor operativo da força naval no final de abril, possui em torno de 32% de conteúdo nacional, ao passo que as outras três unidades encomendadas devem atingir quase 50% de conteúdo nacional. Com a possibilidade de contratação de um segundo lote com mais quatro fragatas, Olsen disse, há cerca de um mês, que existe todo um processo de discussão contratual, que envolve preços da cadeia de suprimentos e formas de efetivamente incorporar um nível mais alto de conteúdo nacional.

“Assumimos a discussão para os contratos das próximas fragatas com conteúdo nacional que chegue a 60%-65%, privilegiando a base industrial de defesa (BID) e preservando empregos e renda”, afirmou Olsen, em entrevista a jornalistas, após a cerimônia de incorporação da fragata Tamandaré ao setor operativo da Marinha, na Base Naval do Rio de Janeiro.

Entre fornecedores locais de equipamentos, há a estimativa de que o aço estrutural e a mão de obra já preencham aproximadamente 40% do conteúdo local das fragatas. O diretor de relações institucionais da empresa estratégica de defesa Spectra Tecnologia, Arthur de Almeida Júnior, acredita que a indústria nacional possui uma série de itens em potencial que poderiam ser contemplados com aumento dos índices, sem alterar as características das fragatas.

O engenheiro naval observa, no entanto, que não houve um movimento eficaz de se pensar na substituição desses itens a partir do projeto da primeira fragata. Ele avalia que o arranjo para as fragatas permite que a Empresa Gerencial de Projetos Navais (Emgepron) contrate com isenção de impostos, o que, na prática, criou uma espécie ‘reserva de conteúdo local ao contrário’, para empresas de fora, com poucas exceções para empresas do Brasil que conseguiram encomendas.

Procurada pela Portos e Navios, a Marinha afirmou que incremento de conteúdo local vem sendo tratado de forma estruturada e com visão de longo prazo, envolvendo discussões técnicas, industriais e estratégicas entre os diversos atores do programa. Em nota, a força naval reconheceu que trata-se, entretanto, de um desafio naturalmente complexo, em um programa naval militar de elevada sofisticação tecnológica, especialmente considerando que grande parte dos sistemas e equipamentos críticos já possui cadeias globais de fornecimento consolidadas e requisitos técnicos bastante específicos.

“No contexto de futuras unidades do programa, eventuais metas mais ambiciosas de conteúdo local demandariam avaliações aprofundadas junto aos fabricantes originais, parceiros tecnológicos e indústria nacional, considerando impactos em prazo, custo, certificações, garantia de desempenho e sustentabilidade industrial ao longo do ciclo de vida das fragatas”, avalia a MB.

A Marinha acrescentou que existem discussões relevantes relacionadas aos próprios critérios e metodologias de aferição do conteúdo local, incluindo possíveis evoluções dos modelos atualmente utilizados, sempre observando as particularidades do setor de defesa naval e as características específicas do Programa de Fragatas Classe Tamandaré (PFCT). Além da MB, a Emgepron, a SPE Águas Azuis, os fornecedores internacionais, empresas da Base Industrial de Defesa (BID) nacional e demais entidades relacionadas ao desenvolvimento industrial e tecnológico do setor são os principais interlocutores desse processo.

A Marinha salientou que, ao longo da execução das primeiras unidades do programa, foi realizado um trabalho abrangente de prospecção e avaliação de fornecedores nacionais para diferentes categorias de equipamentos, sistemas e materiais aplicáveis às fragatas. “Existem oportunidades que podem continuar sendo revisitadas em futuros lotes, especialmente em itens associados à infraestrutura elétrica, componentes mecânicos, sistemas auxiliares, estruturas metálicas, mobiliário técnico, HVAC, equipamentos de convés e determinados subconjuntos industriais”, elencou.

Nacionalização
A força naval pondera que a viabilidade de nacionalização depende de diversos fatores técnicos e econômicos, incluindo capacidade industrial instalada, aderência às normas aplicáveis ao projeto, certificações internacionais, competitividade de custos, prazo de fornecimento e impacto operacional.

“Em alguns casos específicos, iniciativas já avaliadas anteriormente encontraram limitações relacionadas a custo total, peso, desempenho técnico ou integração ao projeto original”, pontuou a MB.

A avaliação da Marinha é que o PFCT conta com participação relevante de empresas estabelecidas no Brasil em diferentes segmentos industriais e de integração naval. A MB citou, entre os fornecimentos e parcerias industriais associados às primeiras unidades do programa: sistemas de compressores; sistemas de bombas e transferência de fluidos; equipamentos de convés; sistemas HVAC; embarcações auxiliares; equipamentos industriais de cozinha; componentes estruturais fundidos e caldeiraria naval; suportação e integração eletromecânica; acessórios de tubulação e infraestrutura elétrica.

Mencionou ainda sistemas de CMS como item parcialmente nacionalizado. “O modelo do programa também contempla integração entre empresas nacionais e fabricantes internacionais, permitindo absorção de conhecimento, qualificação da cadeia local e fortalecimento gradual da Base Industrial de Defesa”, afirmou a força naval.

O entendimento, na visão da Marinha, é que tecnicamente é possível avaliar oportunidades pontuais de incremento de conteúdo local sem alteração significativa das características operacionais das fragatas. E que trata-se de um processo bastante desafiador em razão do elevado grau de integração tecnológica do projeto e das rigorosas exigências normativas aplicáveis ao setor naval militar. A Marinha informou que o projeto das fragatas Tamandaré utiliza padrões e especificações internacionais amplamente empregados na indústria naval europeia, incluindo normas técnicas específicas para equipamentos, materiais, integração eletromecânica e requisitos de desempenho operacional.

Dessa forma, explicou a MB, qualquer substituição ou nacionalização de componentes exige extensos processos de engenharia, validação técnica, certificação e análise de riscos, o que deve inclusive implicar em custos adicionais. “Eventuais incrementos de conteúdo local precisam ser avaliados caso a caso, sempre preservando os requisitos de desempenho, confiabilidade, interoperabilidade e disponibilidade operacional dos meios navais”, frisou a Marinha.

Almeida, que é ex-presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Equipamentos e Componentes de Defesa e Segurança (CSDS/Abimaq), acredita que os quatro últimos anos não foram aproveitados de forma a provocar um aumento real de conteúdo local. Ele também não verifica sinalizações relevantes depois que foi anunciado o segundo lote dos meios navais do programa, no mês passado. Segundo Almeida, para ingressarem novas empresas nacionais, seria necessário que elas recebessem propostas de contrato e cronogramas para as novas unidades, o que não vem ocorrendo.

O engenheiro entende que, dessa forma, não haverá mudanças significativas na composição dos fornecedores porque as empresas que estavam no primeiro lote, já começaram a receber tais propostas para ir para o segundo lote, cujo contrato ainda não tem data para ser assinado.

“O tempo que dava para fazer essa inserção não foi usado e se esgotou. Não há tempo suficiente para cumprir as metas que foram declaradas. Talvez para um terceiro lote, se começarmos hoje”, analisou Almeida.

A MB considera que os modelos de contratação adotados em programas navais complexos normalmente buscam assegurar integração sistêmica, padronização técnica, gestão de riscos, garantia de desempenho e responsabilidade unificada entre os diferentes fornecedores envolvidos. “Naturalmente, em determinados casos, modelos baseados em pacotes integrados podem representar desafios adicionais para fornecedores locais que ainda estejam em processo de consolidação tecnológica ou adaptação aos requisitos específicos do setor naval militar”, diz a força.

Por outro lado, a MB leva em consideração que programas dessa natureza envolvem elevados requisitos técnicos, certificações internacionais, compromissos de desempenho e forte pressão sobre cronogramas de entrega. Além disso, aspectos relacionados à competitividade econômica, estrutura tributária e custos associados à cadeia de fornecimento nacional também influenciam diretamente a viabilidade de ampliação do conteúdo local.

Existem exemplos de equipamentos cujos componentes podem ser encomendados no exterior e montados por empresas brasileiras aqui no país. Esse modelo já é utilizado em diferentes frentes do programa, especialmente em materiais de integração e componentes de montagem industrial aplicados durante a construção naval.

A Marinha citou sistemas de suportação, acessórios de infraestrutura eletromecânica, componentes de tubulação, sistemas de vedação e soluções de passagem de cabos elétricos, nos quais parte dos componentes ou matérias-primas é fornecida por fabricantes internacionais e a integração, montagem ou adaptação ocorre no Brasil por empresas locais qualificadas.

Esse tipo de arranjo industrial permite ampliar a participação da indústria nacional em atividades de integração, fabricação complementar, montagem e suporte técnico, preservando simultaneamente os requisitos técnicos e normativos do projeto. Um exemplo deste tipo de integração, é o alternador/gerador dos grupos geradores das quatro primeiras fragatas.

Alguns analistas também alertam para a dificuldade de encontrar sobressalentes em meio ao cenário geopolítico complexo. Na avaliação da MB, a questão da resiliência logística e da continuidade de fornecimento de sobressalentes vêm ganhando relevância crescente em função do atual cenário geopolítico internacional e das recentes disrupções observadas nas cadeias globais de suprimento.

Nesse contexto, iniciativas relacionadas à diversificação de fornecedores, fortalecimento da BID, desenvolvimento de capacidades locais de manutenção e avaliação estratégica de itens críticos passam a ter importância ainda maior para programas de longo ciclo de vida como o PFCT. A Marinha também observa que o cenário internacional atual tem impactado diretamente custos, disponibilidade industrial e prazos de entrega em diversos segmentos da indústria naval e de defesa, reforçando a necessidade de planejamento logístico de longo prazo e maior previsibilidade nas cadeias estratégicas de suprimento.

“Precisamos de navios [militares] para fazer a dissuasão, sejam eles construídos onde for. E também precisamos de navios que não fiquem impedidos de navegar por falta de sobressalentes. Aí entra a parte de programação da compra, onde o acesso aos sobressalentes é mais complicado. Senão, o navio comprado pode ficar docado, indisponível para defender”, comentou Almeida, da Spectra.

Programa de fragatas
O PFCT contempla a construção de quatro fragatas para a Marinha do Brasil até 2029. A primeira embarcação, fragata Tamandaré (F200), foi entregue à Marinha do Brasil em abril. A segunda fragata iniciará seus testes de mar no segundo semestre deste ano, enquanto a terceira será lançada em junho. A quarta e última embarcação do programa já está em construção.

A SPE Águas Azuis, sociedade de propósito específico formada pela TKMS, Embraer e Atech, considera a continuidade do programa estratégica para preservar as capacidades industriais e tecnológicas desenvolvidas no Brasil ao longo do projeto, além de garantir a manutenção dos empregos qualificados, da cadeia de fornecedores nacionais e da transferência de tecnologia associada ao programa. Em abril deste ano, TKMS, Embraer, Atech e Ministério da Defesa assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) para estabelecer as bases de um possível segundo lote de quatro fragatas adicionais para a Marinha do Brasil. Há uma expectativa no setor de que o contrato seja firmado até setembro de 2026.

De acordo com a SPE, o PFCT envolve cerca de 1.000 empresas brasileiras na cadeia de fornecimento, gerando aproximadamente R$ 5 bilhões em conteúdo local e cerca de R$ 500 milhões em impostos. Atualmente, cerca de 2.000 profissionais atuam diretamente na construção das embarcações, enquanto os impactos indiretos e induzidos devem resultar em aproximadamente 23 mil empregos.

De acordo com dados apresentados pela Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina, na última semana, o estado ocupa a terceira posição entre as unidades da federação com maior volume de vendas para a indústria de defesa, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2025, as vendas da indústria catarinense ao segmento saltaram 178% em relação a 2024.

Para a SPE Águas Azuis, esse avanço está diretamente ligado à expansão de projetos estratégicos, com destaque para o PFCT, atualmente o maior projeto de defesa em desenvolvimento em Santa Catarina, que é desenvolvido em Itajaí, na TKMS Estaleiro Brasil Sul. A avaliação da SPE é que o programa tem papel estratégico para o fortalecimento da BID no Brasil e para o crescimento do setor em Santa Catarina, impulsionando toda a cadeia de defesa nacional.

“Além do avanço das capacidades operacionais da Marinha do Brasil, o programa movimenta a economia, fortalece fornecedores locais e amplia a competitividade da indústria brasileira”, destacou Fernando Queiroz, CEO da Águas Azuis, durante a SC Expo Defense, realizada nos dias 21 e 22 de maio na sede da Fiesc, em Florianópolis.

No evento, o CEO da TKMS Brasil, Paulo Alvarenga, defendeu que a continuidade do programa é fundamental para preservar as capacidades industriais e tecnológicas desenvolvidas no país ao longo dos últimos anos. “O PFCT está transformando Santa Catarina em um polo estratégico da indústria de defesa no Brasil, combinando inovação, transferência de tecnologia e geração de empregos qualificados”, afirmou Alvarenga.

Fonte: Portos e Navios – Danilo Oliveira