Submarino Riachuelo – S40 antes do lançamento ao mar

Submarinos Scorpène negociados com a Argentina podem ser construídos no Brasil, diz Múcio

  • 03/06/2026

O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou que os submarinos da classe Scorpène que a França pretende vender à Argentina deverão ser construídos no Brasil, em uma operação que pode envolver financiamento, cooperação industrial e a participação da estrutura criada pelo Programa de Desenvolvimento de Submarinos da Marinha do Brasil.

Múcio viajou à Argentina para tentar avançar nas negociações envolvendo a venda, o financiamento e a construção das embarcações. A proposta também inclui a oferta do cargueiro militar KC-390 Millennium, da Embraer, à Força Aérea Argentina.

A iniciativa coloca o Brasil em posição central em uma possível recomposição da capacidade submarina argentina. Buenos Aires está sem submarinos operacionais desde o desaparecimento do ARA San Juan, em 2017, episódio que marcou profundamente a Armada Argentina e expôs a deterioração da força submarina do país.

A classe Scorpène é um projeto originalmente desenvolvido pela francesa Naval Group e adotado por diferentes marinhas no mundo, incluindo Chile, Malásia, Índia e Brasil. No caso brasileiro, o modelo serviu de base para a classe Riachuelo, construída no complexo naval de Itaguaí, no Rio de Janeiro, dentro do ProSub.

O programa brasileiro foi firmado com a França em 2008 e permitiu a construção de quatro submarinos convencionais derivados do Scorpène: RiachueloHumaitáTonelero e Almirante Karam. Além das embarcações, o acordo envolveu transferência de tecnologia, desenvolvimento de infraestrutura industrial e a criação de uma base para o futuro submarino brasileiro de propulsão nuclear.

Caso o acordo com a Argentina avance, a construção no Brasil representaria um salto relevante para a indústria naval de defesa nacional. O país deixaria de ser apenas comprador e operador da tecnologia francesa para se tornar também plataforma regional de produção de submarinos destinados a terceiros países, em parceria com a França.

Para a Argentina, a solução brasileira teria vantagens logísticas, políticas e industriais. A proximidade geográfica poderia reduzir custos de acompanhamento, treinamento e suporte. Além disso, a construção em Itaguaí permitiria aproveitar uma cadeia já estabelecida para a produção de submarinos derivados do Scorpène.

A negociação, porém, depende de fatores financeiros e políticos. A Argentina enfrenta restrições orçamentárias severas e precisaria estruturar financiamento de longo prazo para viabilizar a aquisição. Por isso, a visita de Múcio também teve como objetivo discutir mecanismos de crédito e modelos de cooperação que tornem o projeto possível.

A oferta brasileira ocorre em um momento de aproximação pragmática entre Brasília e Buenos Aires na área de defesa. Além dos submarinos, o Brasil tenta vender à Argentina o KC-390 Millennium, aeronave de transporte militar multimissão desenvolvida pela Embraer. O cargueiro pode cumprir missões de transporte tático e logístico, evacuação aeromédica, lançamento de carga e tropas, reabastecimento em voo e apoio humanitário.

O KC-390 já foi escolhido por países da OTAN e parceiros do Brasil, consolidando-se como um dos principais produtos de exportação da indústria de defesa brasileira. A Argentina, que participou originalmente da cadeia produtiva do programa por meio da Fábrica Argentina de Aviões, é vista como cliente potencial natural da aeronave.

A eventual venda conjunta de submarinos e aeronaves reforçaria a estratégia brasileira de ampliar sua presença no mercado regional de defesa. Para a Base Industrial de Defesa, a operação poderia gerar empregos, preservar competências tecnológicas e ampliar a escala de produção em dois setores considerados estratégicos: construção naval militar e aviação de transporte.

Do ponto de vista geopolítico, a recomposição da força submarina argentina também teria impacto no Atlântico Sul. A região é considerada estratégica para Brasil e Argentina, tanto pela proteção de rotas marítimas quanto pela presença de recursos naturais, cabos submarinos, áreas de pesca, exploração offshore e interesses antárticos.

Atualmente, o Brasil opera e constrói submarinos convencionais modernos, enquanto a Argentina busca recuperar uma capacidade que já foi relevante em sua história naval. Uma solução envolvendo Scorpène construídos no Brasil poderia criar um eixo de cooperação regional inédito, combinando tecnologia francesa, infraestrutura brasileira e necessidade operacional argentina.

Fonte: Poder Naval / Estadão