Telmo Ghiorzi, da ABESPetro: Brasil pode ser polo internacional de desmantelamento e reciclagem

  • 01/10/2026

Associação vê país em condições de se tornar referência em descomissionamento, atendendo à demanda doméstica e posicionando-se para receber embarcações, plataformas e equipamentos provenientes de outros países para destinação sustentável

A Associação Brasileira das Empresas de Bens e Serviços de Petróleo (ABESPetro) identifica uma oportunidade para a indústria desenvolver capacidade nacional suficiente para que o Brasil execute seus próprios projetos de descomissionamento e se torne um polo internacional de desmantelamento e reciclagem sustentável de ativos offshore. Para a associação, essa aposta significaria ampliar investimentos, aumentar a arrecadação e criar milhares de empregos.

A avaliação é que o desenvolvimento dessa cadeia depende de uma visão integrada envolvendo governo, reguladores, operadores, estaleiros, portos e fornecedores, de forma a construir um ecossistema capaz de capturar no Brasil a maior parte do valor gerado pelo descomissionamento. A associação entende que o país possui competência técnica, experiência offshore e capacidade empresarial relevantes, mas ainda existem gargalos importantes.

“Entre eles estão a necessidade de ampliação de áreas licenciadas para desmantelamento e reciclagem, maior disponibilidade de infraestrutura portuária e estaleiros adequados, harmonização dos processos de licenciamento, fortalecimento da gestão e rastreabilidade de resíduos e maior previsibilidade regulatória”, elencou o presidente-executivo da associação, Telmo Ghiorzi, em entrevista à Portos e Navios.

A ABESPetro considera que as questões regulatórias relacionadas ao descomissionamento não devem ser vistas como um obstáculo à atividade, mas como um tema que precisa de mais clareza e previsibilidade. Para a associação, o Brasil já avançou significativamente na regulamentação do tema, especialmente com a resolução ANP 817/2020. No entanto, o descomissionamento envolve diferentes órgãos, normas e etapas, o que torna o ambiente regulatório complexo e, em alguns pontos, pouco integrado.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estima que o inventário de investimentos para descomissionamento previstos supera R$ 70 bilhões entre 2025 e 2029, com a expectativa de que 35 unidades de produção sejam desativadas nesse período. A ABESPetro avalia que, com essas projeções, o país está diante de uma janela de oportunidade. A associação enxerga o descomissionamento não como um passivo inevitável do fim da vida útil dos campos, mas como uma nova indústria estratégica para o Brasil.

A leitura da ABESPetro é que trata-se não apenas da etapa final da vida útil de campos de petróleo e gás, mas da formação de uma nova indústria capaz de mobilizar engenharia, logística, construção e reparo naval, portos, reciclagem, tratamento ambiental, siderurgia e diversos segmentos especializados da cadeia de petróleo e gás.

A ABESPetro vê no Brasil condições para se tornar uma referência em descomissionamento, atendendo à demanda doméstica e posicionando-se para receber embarcações, plataformas e equipamentos provenientes de outros países.

“Para que esse potencial seja plenamente capturado, contudo, é fundamental construir um ambiente regulatório estável, previsível e competitivo, capaz de dar segurança aos investidores e estimular o desenvolvimento da capacidade instalada nacional”, analisa o presidente-executivo da associação.

Ghiorzi afirma que as associadas da ABESPetro já atuam em praticamente todos os elos dessa cadeia e podem ampliar sua participação, tanto individualmente quanto por meio de soluções integradas. As oportunidades estão identificadas para empresas de engenharia, operadores marítimos, estaleiros, prestadores de serviços ambientais, operadores portuários, empresas de logística, fabricantes de equipamentos, recicladoras e fornecedores especializados.

Fonte: Portos e Navios – Danilo Oliveira
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