Renovação da frota do sistema Petrobras contrata gaseiros, barcaças e empurradores para obras em três estaleiros

  • 25/02/2026

A Petrobras e a Transpetro assinaram, em janeiro, novos contratos para a construção de embarcações do ‘Mar Aberto’, nova denominação do programa voltado à renovação e ampliação da frota do sistema Petrobras. Na cerimônia realizada em Rio Grande (RS), a holding e sua subsidiária contrataram cinco navios gaseiros, além de 18 barcaças e 18 empurradores, num investimento total de R$ 2,8 bilhões. Essas embarcações serão operadas pela Transpetro e construídas em estaleiros de três estados.

No Rio Grande do Sul, o Estaleiro Rio Grande (ERG), da Ecovix, será responsável pela obra dos cinco gaseiros. No Amazonas, o estaleiro Bertolini Construção Naval da Amazônia (Beconal), construirá as 18 barcaças. Em Santa Catarina, o estaleiro Indústria Naval Catarinense (INC), vai construir os 18 empurradores.O potencial de geração nessas encomendas é de mais de 9.000 empregos diretos e indiretos, segundo a Petrobras.

Os gaseiros foram contratados por meio de licitação aberta e internacional, em dois lotes com oito embarcações no total — o resultado do outro lote não foi homologado até o fechamento desta edição. O ERG foi contratado para construir cinco navios pressurizados destinados ao transporte de gás liquefeito de petróleo (GLP) e de derivados: três com capacidade de 7.000 metros cúbicos (m³) e dois para 14.000 m³. O investimento total nessas construções totaliza R$ 2,2 bilhões. Com isso, a frota de gaseiros da Transpetro irá subir de seis para 14, triplicando a atual capacidade de transporte de GLP e derivados.

As encomendas consideram o aumento da produção de gás natural no país e atendem às necessidades da Petrobras, tanto na costa brasileira quanto na navegação fluvial, incluindo a região Norte e a Lagoa dos Patos (RS). De acordo com a Petrobras, os novos gaseiros serão até 20% mais eficientes no consumo de energia e reduzirão as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 30%. O lançamento da primeira unidade está previsto para ocorrer até 33 meses após o início das obras, com novas entregas a cada seis meses.

A encomenda das 18 barcaças e 18 empurradores representa um investimento de R$ 620,6 milhões, fortalecendo a operação da Transpetro na navegação interior. A presença em águas abrigadas ou parcialmente abrigadas, como rios, lagos, canais, baías e lagoas tem objetivo de consolidar a empresa como uma das principais operadoras de transporte de derivados de petróleo e de biocombustíveis no modal fluvial.

O novo modelo de negócio viabilizará a verticalização da operação de bunkering, permitindo à Transpetro dispor de uma frota própria para abastecimento em polos como Belém (PA), Rio de Janeiro (RJ), Santos (SP), Paranaguá (PR) e Rio Grande (RS). A estratégia da empresa com essa integração é assegurar maior controle operacional, otimização de custos e ganhos de eficiência logística.

O estaleiro Beconal, de Manaus (AM), será responsável pela construção das 18 barcaças, com a entrega da primeira unidade prevista três meses após o início da obra. Do total contratado, 10 terão capacidade de 3.000 toneladas de porte bruto (TPB) e 8, de 2.000 TPB. O estaleiro INC, localizado em Navegantes (SC), construirá os 18 empurradores, com a entrega inicial programada para 10 meses após o início da fabricação.

O Mar Aberto tem aportes estimados em US$ 6 bilhões no período de 2026 a 2030, abrangendo a construção de um total de 20 navios de cabotagem, além de 18 barcaças e 18 empurradores, além da previsão de afretamento de 40 novas embarcações de apoio destinadas à renovação da frota de apoio marítimo. A Petrobras afirma que o programa reforça o compromisso com a renovação e ampliação da frota nacional, contribui com a logística das operações e com o fortalecimento da indústria naval brasileira, em alinhamento com os objetivos da transição energética justa.

A Petrobras defende que essa estratégia de renovar a frota reduzirá a dependência de afretamentos, proporcionando mais flexibilidade e eficiência às operações logísticas de movimentação de GLP e dos demais produtos. “Com essas contratações, estamos deixando a Petrobras preparada para o crescimento da nossa produção nos próximos anos e alavancando a retomada da indústria naval nacional”, declarou em nota a presidente da Petrobras, Magda Chambriard. Ela acrescenta que o investimento em encomendas para indústria naval e offshore estimula um ciclo de novos negócios e oportunidades, fortalecendo a cadeia produtiva industrial brasileira.

Para o presidente da Transpetro, Sérgio Bacci, a renovação e ampliação da frota permite à empresa atender ao crescimento da produção do país com mais eficiência, reduzindo custos e fortalecendo a soberania energética. “Os contratos assinados têm potencial para gerar mais de 9.000 empregos diretos e indiretos, revitalizar a indústria naval e mobilizar a cadeia produtiva desse segmento do país. Ver os pólos navais nacionais sendo retomados, sem dúvida, é motivo de orgulho para todos nós brasileiros”, salienta Bacci.

O Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval) avalia que os novos contratos representam um momento que simboliza a retomada de uma atividade estratégica, capaz de gerar empregos, movimentar a cadeia de fornecedores e fortalecer a capacidade industrial nacional. Para o Sinaval, a construção dessas embarcações em estaleiros brasileiros mostra que, com planejamento e coordenação, é possível atender a demandas complexas dentro do país.

O sindicato ressalta que ainda é preciso avançar em questões relacionadas a financiamentos e garantias para acelerar ainda mais a retomada.

“A assinatura dos contratos para a construção dos navios gaseiros, empurradores e barcaças da Transpetro, no Rio Grande do Sul, representa um passo importante para a indústria naval brasileira. É o resultado de muito diálogo, trabalho conjunto e da disposição de diferentes atores em construir soluções para o país”, destaca o presidente do Sinaval, Ariovaldo Rocha.

Rocha diz que o Sinaval tem atuado de forma contínua nesse processo, sempre em diálogo com a Transpetro, a Petrobras e o governo federal, buscando criar um ambiente mais previsível e competitivo para os estaleiros. “Ainda há desafios, mas iniciativas como essa reforçam que estamos avançando no caminho da reconstrução da indústria”, afirmou o presidente do sindicato.

Os investimentos se somam aos R$ 1,4 bilhão destinados à construção dos 4 navios classe Handy, também pela Ecovix no ERG, só que em parceria com o grupo Mac Laren.

Durante o evento de assinatura do contrato dos gaseiros, barcaças e empurradores, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse que existem mais nove embarcações em avaliação e, pelo menos, 6 a 8 novas plataformas em estudo pela companhia para serem licitadas e construídas.

A Câmara Setorial de Máquinas e Equipamentos Offshore reafirma que a indústria brasileira está preparada e deseja participar de forma ativa, ampla e qualificada da retomada das encomendas do setor no Brasil. A CSENO/Abimaq acenou para a capacidade das empresas associadas contribuírem com elevado conteúdo local, competência técnica e capacidade industrial de forma aderente às demandas das novas construções, que visam ampliar e renovar a frota do sistema Petrobras.

A câmara setorial da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) destaca o papel estratégico da Transpetro como principal operadora logística de dutos e transporte marítimo do país, bem como a condução do programa ‘Mar Aberto’, cuja assinatura dos contratos representa uma conquista aguardada há anos pela indústria brasileira.

“Esses projetos eram amplamente ansiados pelo setor produtivo nacional, não apenas pelo seu volume e relevância, mas pelo impacto direto no fortalecimento da soberania logística, industrial e energética do Brasil”, comenta o presidente da CSENO/Abimaq, Leandro Pinto.

Os fornecedores nacionais também aguardam a finalização da terceira licitação internacional lançada pela Transpetro para a contratação de quatro navios da classe MR1 (Medium Range), com 40.000 toneladas de porte bruto (TPB). Segundo o presidente da CSENO, essa concorrência representa um passo decisivo para a consolidação da retomada da indústria naval.

A câmara setorial entende como fundamental que essas embarcações sejam construídas em estaleiros brasileiros, assegurando a internalização de investimentos, a geração de empregos qualificados e o fortalecimento da base industrial nacional.

“A previsibilidade e a continuidade dos programas são determinantes para garantir escala produtiva, competitividade e sustentabilidade de longo prazo ao setor naval brasileiro”, defende Pinto, que é diretor geral da Anschütz.

A CSENO ressalta ainda que os fabricantes nacionais de máquinas, equipamentos e sistemas offshore possuem histórico comprovado de fornecimento ao setor de petróleo e gás, incluindo embarcações de grande porte e projetos de elevada complexidade. Pinto diz que a engenharia brasileira demonstra maturidade, flexibilidade tecnológica e plena conformidade com os mais rigorosos requisitos técnicos, ambientais e de segurança, conforme as normas da Organização Marítima Internacional (IMO), estando apta a contribuir para a eficiência operacional, a segurança e a sustentabilidade desses ativos ao longo de todo o seu ciclo de vida.

“Reconhecendo o caráter internacional e competitivo dos processos licitatórios, a câmara setorial reafirma seu compromisso com o diálogo técnico contínuo e colaborativo junto à Transpetro, estaleiros e demais stakeholders”, afirma.

Ele considera fundamental que, nos próximos programas de renovação e ampliação da frota, estaleiros brasileiros demonstrem interesse ativo em participar, fortalecendo o ecossistema industrial nacional.

“A participação efetiva dos estaleiros, aliada à integração de soluções locais com parceiros nacionais e internacionais, é essencial para maximizar o conteúdo nacional, gerar sinergias produtivas e consolidar o Brasil como referência em inovação, competitividade e sustentabilidade no setor naval e offshore”, conclui.

A Ghenova Brasil contribuirá com a engenharia completa dos gaseiros, incluindo design dos cinco navios e projeto conceitual. A empresa destaca que o projeto foi desenvolvido praticamente ‘Tailor Made’, sob medida para os requisitos do edital.

“Fechamos parceria com a Ecovix desde os primórdios do edital, fazendo os ajustes necessários para poder atender aos requisitos da Transpetro e ajudar na modelagem da proposta ganhadora”, conta o CEO da Ghenova, Frederico Cupello.

A equipe da Ghenova agora atuará nas próximas fases, que incluem projeto básico, detalhamento e assistência técnica à construção. Cupello explica que são dois modelos de navios de transporte pressurizado, conforme as especificações da licitação da Transpetro.

“A eficiência energética foi muito levada em conta no nosso design. Esses navios estão preparados para cumprir as últimas normativas de eficiência energética e redução de emissões”, ressalta Cupello.

Cupello lembra que, durante a crise da construção naval da última década no Brasil, muitas empresas do ramo fecharam e algumas estrangeiras reduziram atividades e deixaram o país. Ele pondera que, nesse período, a Ghenova buscou nichos que estavam aquecidos, como o de embarcações fluviais. O executivo considera que a robustez internacional do grupo também contribuiu para manter a equipe no Brasil, inclusive apoiando projetos no exterior.

“No nosso braço brasileiro da Ghenova, estamos orgulhosos de levantar a bandeira que a indústria naval brasileira está viva. A engenharia naval brasileira está viva, com capacidade e qualidade”, completa Cupello.

Na cerimônia de assinatura do contrato dos gaseiros realizada no Estaleiro Rio Grande, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, destacou que a Petrobras, aos poucos, vai se transformando numa empresa de energia.

“Esse país precisa ter a seguinte decisão: nós precisamos construir uma soberania energética. A gente não pode ficar dependendo de nenhum país do mundo e de tecnologia de outros países”, afirmou o presidente.

Magda Chambriard lamentou que, com todo potencial de crescimento, a Petrobras tenha ficado 10 anos sem encomendar um único navio no Brasil. “Hoje temos encomendas no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, na Bahia e no Amazonas. Essas encomendas vão demandar um número significativo de profissionais qualificados já a partir de março deste ano”, projetou no evento.

Magda acredita que os empregos dessa indústria, que em 2022 estavam na casa de 18.000 e fecharam 2025 em 50.000, serão ampliados em 2026, 2027 e 2028. “Vamos nos aproximar de volta daquele número original de 80.000 empregos na indústria naval brasileira”, afirmou. Ela considera que o crescimento de 180% em termos de emprego nos últimos quatro anos foi possível graças aos financiamentos do Fundo da Marinha Mercante, à depreciação acelerada e às políticas de conteúdo local.

O presidente da Transpetro, Sérgio Bacci, reforçou que a demanda perene por embarcações é uma das principais alavancas de crescimento, o que só está sendo possível porque o sistema Petrobras priorizou a renovação e ampliação da frota própria. Também salientou que a retomada da indústria naval se dá com políticas industriais específicas.

“Sem política de conteúdo local, recursos do FMM e mecanismos como depreciação acelerada não seria possível assinar esses contratos, com geração de emprego recorde e aumento da renda. Com isso, estaleiros, empresas de navipeças e os demais elos da cadeia produtiva podem se planejar para fazer seus investimentos, retomando esse ciclo positivo”, apontou Bacci.

Fonte: Portos e Navios – Danilo Oliveira