Indústria naval brasileira rebate crítica ‘caricatural’ e ensina que Estados apoiam o setor por saberem que é fundamental à soberania.
A construção naval mundial é uma indústria estratégica, intensiva em capital, tecnologia, engenharia, aço, equipamentos, financiamento, garantias, escala e previsibilidade. Em todos os países que lideram esse mercado, ela foi tratada como política de Estado, não como improviso.
“O debate sério não é entre ‘navio barato lá fora’ e ‘navio caro no Brasil’. O debate sério é entre um Brasil que aceita ser apenas comprador dependente de capacidade estrangeira e um Brasil que decide construir sua própria base industrial, tecnológica e marítima.”
A afirmação é do presidente do Sinaval (Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore), Ariovaldo Rocha, na nota “Indústria naval não se constrói com ironia; constrói-se com política de Estado”, que contesta artigo publicado em um jornal do Rio de Janeiro e outro de São Paulo por Elio Gaspari, que “voltou a tratar a indústria naval brasileira como se ela fosse uma aventura episódica, um capricho de governo ou uma reincidência de ineficiência nacional”.
“Um país que depende do mar para exportar, importar, produzir energia, defender seu território e integrar sua logística não pode abrir mão de capacidade própria de construir, reparar, manter e modernizar embarcações. Quem renuncia à indústria naval renuncia a parte da própria soberania”, alerta a nota.
“A construção naval mundial não é uma feira livre regida apenas pelo menor preço. É uma indústria estratégica, intensiva em capital, tecnologia, engenharia, aço, equipamentos, financiamento, garantias, escala e previsibilidade”, destaca o Sinaval.
“Em todos os países que lideram esse mercado, ela foi tratada como política de Estado, não como improviso. Japão, Coreia do Sul, China, Estados Unidos, países europeus e, mais recentemente, Índia e nações do Oriente Médio entenderam que navios, plataformas, embarcações de apoio, meios navais e infraestrutura marítima não são apenas ativos comerciais. São instrumentos de soberania, segurança energética, defesa, comércio exterior, inovação e geração de empregos qualificados”, ensina o sindicato que representa o setor naval brasileiro.
O Sinaval destaca as diferentes formas de apoio do Estado em países que hoje lideram o setor. Segundo a OCDE, o governo sul-coreano desempenha papel central e estratégico no apoio à construção naval por meio de marcos regulatórios, inovação, instrumentos financeiros, agências de crédito à exportação e planos de longo prazo.
No Japão, a OCDE registra apoio governamental por políticas de financiamento, além de programas voltados a digitalização, descarbonização e navios de próxima geração.
Sobre a China, relatório do USTR, o escritório estadunidense para o comércio, aponta quase três décadas de planejamento estatal, apoio financeiro não mercadológico, vantagens de custo, controle estatal e metas explícitas para dominar mundialmente os setores marítimo, logístico e naval.
Portanto, quando alguém afirma que o navio estrangeiro é mais barato, precisa dizer o resto da frase: ele é mais barato porque, em muitos casos, chega ao preço final carregando décadas de subsídios diretos e indiretos, financiamento favorecido, garantias públicas, encomendas previsíveis, infraestrutura subsidiada, políticas de conteúdo nacional, proteção de mercado, compras estatais, apoio à inovação e escala construída pelo Estado.
Ariovaldo Rocha, presidente do Sinaval (Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore)
Efeitos do Custo Brasil na indústria naval
A nota do Sindicato destaca também o Custo Brasil. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), com base em estudo em parceria com o Movimento Brasil Competitivo, estima que esse custo representa R$ 1,7 trilhão por ano, cerca de 19,5% do PIB de 2022. A CNI também define o Custo Brasil como um “tributo invisível” que encarece a produção e reduz a competitividade da indústria nacional.
A fake news em relação ao navio João Cândido é derrubada pelo Sinaval, que assegura que o petroleiro é reconhecido, até hoje, como um dos melhores navios da frota da Transpetro, “com desempenho operacional que desmente a caricatura feita pelo jornalista”.






